sexta-feira, 22 de maio de 2009

Afinal, para quê tanto alarido?


Escola distribui preservativos há três anos sem polémicas

"Li os projectos de lei de educação sexual do PS e do PCP na diagonal e não vi nada de novo, nada que me surpreendesse. Na minha escola já há três anos que temos um gabinete onde professores e enfermeiros estão disponíveis para atender os alunos e onde disponibilizamos preservativos."

Ondina Freixo, 46 anos, professora de Biologia/Geologia, coordena a área da Educação para a Saúde no Agrupamento de Escolas de Moimenta da Beira,Viseu, e confessa não entender toda a "polémica" que este tema tem suscitado.
Na escola a que pertence, diz, não só as iniciativas relacionadas com a Educação Sexual são um sucesso, como "nunca houve problemas com um pai. Aliás, quando reunimos temos sempre connosco um representante da associação de pais", lembra.

A própria professora tem uma filha de 13 anos na escola. Tal como o director do agrupamento, Alcides Sarmento, que tem duas filhas, uma de 17 e outra com 14. "Acreditei no projecto e fomos vendo a sua aplicação. Visto em abstracto tive alguns receios, quando isto começou. Mas acho que para esta avaliação até conta mais a minha experiência como pai que como responsável escolar e concluí que acabou por facilitar a educação das minhas filhas."

O agrupamento de Moimenta da Beira não é o único no País a ter um gabinete de atendimento e a disponibilizar preservativos: há escolas, como a Lima de Freitas (Setúbal), onde há mais de dez anos se criaram gabinetes e, na sequência da lei de 1999, se disponibilizaram preservativos.

Legalmente, o acesso a preservativos nas escolas secundárias já está previsto desde 1999, mas o Ministério da Educação não tem dados sobre quantas o facultam

(Notícia do DN desta sexta-feira)

O problema do costume


Há muitos anos que ouvimos declarações bondosas sobre a necessidade da educação sexual. Descontando a irresponsabilidade do Papa nas declarações que fez sobre preservativos, ouvimos sempre que é preciso promover mais informação e mais discussão sobre o assunto.

Foi assim em todas as discussões sobre aborto: todos queriam "educação sexual" e uma aposta "na informação e contracepção". Foi assim quando se discutiu a "pílula do dia seguinte": todos diziam que, antes de mais, era preciso apostar na prevenção, e portanto na promoção do uso do preservativo. É assim sempre que sai um novo estudo sobre as práticas sexuais dos jovens, porque cada novo estudo confirma que são os jovens quem mais contribui para os novos casos de sida e que há uma percentagem demasiado grande de jovens que não utiliza preservativo nas suas primeiras relações sexuais. Na verdade, o preservativo é sempre muito importante e gera sempre todos os consensos até chegar a hora da verdade: a hora em que é preciso decidir e ser consequente.

O que se tem passado com a discussão da Educação Sexual é um bom exemplo deste paradoxo. O Bloco propôs uma lei, rapidamente chumbada pela maioria do Parlamento, que era corajosa: queríamos uma área curricular, queríamos uma bolsa de profissionais por cada agrupamento de escola e queríamos gabinetes a funcionar, com atendimento desses profissionais e com distribuição de contraceptivos. Era uma questão de responsabilidade.

O PS anunciou, pela voz dos seus jotas, um projecto "corajoso e inovador." Mas o caminho que a sua discussão tem levado já dá para perceber como vai acabar o filme.

Onde era preciso haver investimento em profissionais novos a assumir esta responsabilidade, insiste-se na sobrecarga dos professores que já têm outras funções na escola e no empurrar de responsabilidades para os "técnicos de saúde". Onde era preciso assegurar um horário onde a discussão acontecesse e a informação existisse, dilui-se na imposição de algumas horas distribuídas por outras disciplinas e áreas curriculares - e, claro, facultativas para os colégios católicos (Santos Silva dixit, como se os estudantes dessas escolas precisassem menos de protecção e informação que os outros jovens). Onde era preciso coragem para combater as vozes conservadoras que sempre se opõem à informação e o paternalismo dos que acham que os jovens não podem ter acesso a preservativos sem que isso seja acompanhado de uma lição de moral, existe no PS tibieza e recuo. Dizer que haverá preservativos nas escolas quando houver nas escolas técnicos de saúde é atirar essa escolha para as calendas - para que fique tudo exactamente como está. É uma solução que agradrá a hierarquia da Igreja e o PSD.

É pena. Porque é preciso encarar a realidade e ser sensato. Os jovens do secundário já têm, na sua maioria, uma vida sexual. E promover o contacto com os preservativos, método essencial de contracepção e de prevenção de doenças, é uma prioridade. É preciso que o preservativo seja uma coisa normal e que pôr o preservativo seja uma parte excitante e divertida do jogo sexual. É preciso, claro, que o preservativo se torne banal. Sem isso, continuaremos a lamentar hipocritamente as DST, a incidência da sida nos jovens e a gravidez na adolescência, ao mesmo tempo que ouviremos as vozes de sempre a dizer que a única solução é impor uma moral particular ou apelar (pregando no deserto) à abstinência.

Por momentos, chegou a parecer que alguma coisa ia acontecer na educação sexual em Portugal e que esta era a hora da coragem. Mas foi sol de pouca dura... O projecto dos deputados da JS deixava muito a desejar, mas pelo menos dava pequenos passos. Só que trazia consigo o problema de sempre: a maioria do PS e as suas crónicas hesitações. É também esse problema que precisamos de resolver.

Artigo de José Soeiro, publicado em esquerda.net

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Os professores desmontarão na rua a manipulação do governo


A Ministra da Educação veio dizer que a avaliação de desempenho dos professores é "uma reforma ganha”. Afirmações destas são a prova mais evidente de que uma avaliação rigorosa nunca foi o objectivo deste governo. Os dois simplexs que a Ministra foi obrigada a apresentar depois das grandes moblizações dos professores transformaram o seu megalómano, burocrático, inviável e injusto modelo de avaliação numa farsa, num protocolo inútil. Para a esmagadora maioria dos professores resume-se à apresentação de uma folha com objectivos individuais e de uma ficha de auto-avaliação, em que a assiduidade releva como o factor mais importante na avaliação do desempenho.

Em nada se contribuiu para a melhoria das aprendizagem dos alunos. Bem pelo contrário. A Ministra sabe-o. Sabe que não haverá este ano nenhuma avaliação rigorosa. Mas isso pouco interessa, tudo se joga ao nível da imagem e da manipulação: as eleições estão à porta e o governo tem que mostrar obra feita. Só que a farsa não pode ser mantida durante muito mais tempo. As suas palavras podem valer para os mais desatentos nas eleições, mas depressa vão chocar com a realidade.

Os professores têm uma grande oportunidade de destapar a careca deste governo: é já no dia 30 de Maio que precisamos de um sinal forte de todos os que, cendendo a uma ameaça insuportável, entregaram os objectivos individuais. A Ministra quer usá-los como números da sua vitória mas os professores vão estragar-lhe a festa.

SPGL: Lista A vence eleições


Embora não sejam ainda resultados finais (estão em actualização aqui) já é certa a vitória da Lista A.

MAG e Direcção Central
Lista A - 2869 votos
Lista B - 1641

Conselho Geral
Lista A - 2689
Lista B - 1430
Lista C - 210
Lista D - 247

Conselho Fiscal
Lista A - 2752
Lista B - 1485
Lista C - 305

Direcção Regional de Lisboa
Lista A - 1239
Lista B - 703
Lista C - 164

Direcção Regional do Oeste
Lista A - 318
Lista B - 175

Direcção Regional de Setúbal
Lista A - 746
Lista B - 477

Direcção Regional de Santarém
Lista A - 484
Lista B - 168

“Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”

Ainda a propósito da visita a Ovar, da Ministra da Educação, que, sem que os próprios profissionais e comunidade em geral soubessem, visitou a Secundária Júlio Dinis e de forma “meia” camuflada na comunidade local (só com a imprensa mais mediática atrás de si) participou no dia do Patrono na Secundária Dr. José Macedo Fragateiro. E quando estão em calendário de luta e resistência, no caso dos docentes, jornadas como a do dia 26, com paralisação entre as 8h e as 10h30. Um dia nacional de protesto e de luto, que só pode culminar com mais uma grandiosa manifestação em Lisboa no dia 30, para que se repitam mais de 100 mil vozes, que bem podiam gritar em honra do poeta, “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”.

Nesta hora de mobilização e exigência de mais unidade em defesa da Escola Pública e defesa da dignidade dos profissionais da educação, é gratificante recorrer a um desabafo de uma docente, a propósito da visita da Ministra a Ovar.

“7 de Maio de 2009, dia do patrono da ES/3 Dr. José Macedo Fragateiro. A Ministra da Educação aproveitou a efeméride para ir à escola entregar diplomas e, supostamente, ver a Escola antes das obras que aí vão ser realizadas. Tudo ocorreu com grande secretismo, mas, no próprio dia, adivinhava-se que a visita ia mesmo acontecer.
Ao final da tarde, no exterior, foram-se juntan
do professores/as de várias escolas de Ovar, vestidos de luto, que de mãos dadas em silêncio, foram ladeando a porta de entrada da escola, por onde presumivelmente passaria o carro da ministra.
Finalmente chegou, mas “num golpe de rins” o carro guinou para um portão lateral.
Maria de Lurdes Rodrigues teve medo daquele luto e daquele silêncio. A indignação foi tão grande que, espontaneamente, em coro (forte, muito forte) os professores gritaram: "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não!". Foi um momento de grande emoção colectiva.
Dentro da escola os professores também vestiam de luto.
A ministra entrou, falou, entregou diplomas, mas os professores mantiveram-se obstinadamente juntos e silenciosos. Depois o "Canto Décimo", também de luto vestido dedicou o seu canto aos professores portugueses, e à memória de José Fragateiro, evocando a frontalidade democrática que o caracterizava, e que o faria, certamente, estar ao lado dos professores, nestes tempos tão difíceis que estão a passar.
No fim da sessão, um grupo de professores entregou à Ministra um documento de protesto, que deixamos aqui, para que conste. A resistência continua! E a Ministra foi-se embora sem visitar a Escola."


Mas para completar a notícia que em primeira-mão tinha sido divulgada no Movimento Escola Pública, fica aqui agora o texto entregue à responsável pelo Ministério da Educação.

Senhora Ministra da Educação
Excelência

Hoje, dia 7 de Maio de 2009, a nossa Escola – a Escola Secundária com 3.º Ciclo do E.B. José Macedo Fragateiro – está em festa.

Durante todo o dia foi possível verificar, em muitos dos nossos espaços interiores e exteriores, o profissionalismo, a dedicação e empenho dos professores, dos alunos e dos funcionários que integram o conjunto da nossa comunidade escolar.
Ao longo do dia, por entre todas as actividades aqui realizadas, pudemos também perceber e sentir o espírito e a presença do legado que nos deixou o nosso patrono, colega e companheiro de alguns de nós em tempos difíceis do nosso sistema educativo, o Dr. José Macedo Fragateiro

O Dr. Fragateiro foi e continua a ser para nós um modelo de pedagogo que, sem alaridos nem arruaça, soube mostrar-nos (a professores, a alunos e a funcionários) como se deve combater pela liberdade, pela justiça e pela qualidade da escola pública. O Dr. Fragateiro foi e continuará a ser para nós um exemplo de cidadão que não verga a cerviz e não cede a tiques de autoritarismo ou à imposição de quaisquer tipo de mordaça ou inibição da liberdade e autonomia que deve reger o verdadeiro trabalho docente (um magistério!) nem ficaria indiferente perante toda e qualquer manifestação de ataque à dignidade e prestígio da função docente. Se cá estivesse ainda, certamente estaria ao nosso lado e não aceitaria a perda da democracia na gestão das escolas nem alinharia com processos de pseudo-avaliação de desempenho docente nem com a divisão da nossa carreira em diferentes categorias.

Neste dia, portanto, que foi de festa e de alegria, não poderíamos deixar de lhe manifestar – em nome da grande maioria dos professores desta escola – a nossa tristeza e mágoa por tudo o que o seu Ministério nos tem feito e continua a fazer, destruindo a nossa vontade de trabalhar mais e sempre em prol da formação dos nossos alunos como cidadãos livres, críticos e independentes.
A senhora Ministra sabe certamente as razões por que lhe dizemos isto.

Professores da Escola Sec. José Macedo Fragateiro

José Lopes (Ovar)

(imagem daqui
)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Reunião aberta para preparar a manifestação


Além de discutir as próximas inciativas do MEP, esta reunião destina-se a preparar a Manifestação de 30 de Maio.

Aproximamo-nos da última semana de mobilização para mais um grande momento de expressão da força e união dos professores contra esta política educativa.

É por isso urgente juntar, convencer, convocar, mobilizar. Teremos na reunião cartazes e panfletos para distribuir nas escolas.

Debateremos ideias e palavras de ordem para colorir a manifestação e para projectar o dia seguinte.

A Reunião é aberta a todos e todas. Vem ajudar a construir a luta pela escola pública!

Reunião aberta do Movimento Escola Pública
Sábado, 23 de Maio, 16h, Casa do Brasil de Lisboa

Rua São Pedro de Alcântara, 63 - 1º direito (ao Bairro Alto)

Nós vamos!


A Manifestação do próximo dia 30 é o momento em que os professores voltam a unir-se contra esta política educativa.

Experimentemos outra vez a nossa força na rua. Ela já deu frutos no passado: o modelo de avaliação do governo é agora um conjunto de cacos.

Voltar à rua é condição para que o governo não apanhe os cacos um a um.

Voltar à rua é urgente para impor outros recuos bem mais fundos: contra a divisão da carreira, pela escola pública inclusiva.

Sim. Vale a pena. Nós vamos. Somos muitos. Podemos.

Esta luta não acabou....


(desenho de Antero Valério)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Desperdício


Comecei hoje a escrevinhar umas linhas promissoras sobre o debate em torno da educação sexual, que está agora em discussão na AR - tema importante (a que prometo voltar...) - mas abandonei o texto a meio. O "tema do dia " na educação revelou ser outro. Não queria deixar passar o rebuliço mediático sem esboçar algumas ideias sobre o assunto - e o assunto é, obviamente, a gravação áudio da "aula" de uma professora de História, em Espinho.

Primeira reacção: confesso que acho o comportamento da professora aterrador. Bem sei que o som foi cortado, que ouço frases sem contextualização. Certo. Mas nada, nada justifica o tom, o método retórico e o conteúdo desproporcionado e desadequado da professora.

Segundo, é difícil fazer um debate sério sobre a crise e os desafios que se colocam à escola pública quando somos sucessivamente colocados perante a mediatização distorcida do quotidiano da escola pública - a Escola só tornada visível no espaço político nos seus aspectos extremos e inusuais (o caso do telemóvel, os casos de violência contra professores).

Terceiro, parece que estamos sempre perante a generalização abusiva da excepção e o silêncio sobre os problemas estruturais. Isto é, creio que este caso é excepcional dado o desvario do discurso da professora (ou seja, não é um caso de falta de profissionalismo, é antes um caso de desadequação total para as funções). Este não deve, portanto, servir de indicador para discutir o problema da qualidade profissional dos docentes da escola pública. Mas a verdade é que a qualidade da formação dos professores - científica e pedagógica - é um problema, e deve ser discutido seriamente.

Concluindo: este caso merece discussão no espaço público porque revela falhas graves da escola pública. Simultaneamente, a sua divulgação parece encandear o campo político da educação e distorce a visão que a opinião pública tem da escola.

Atrever-me-ia a dizer que, medidas as devidas proporções, o modelo de avaliação proposto pelo ME provocou algo semelhante: quis colocar sobre os professores a "culpa" dos problemas do sistema educativo, e nunca cuidou de trabalhar para a qualificação dos professores. Distorceu o debate, e por isso impediu a discussão dos reais problemas.

Quatro anos de governação e fica esta sensação - desperdício. Parece que estamos sempre a repetir discussões espúrias, e há tanto que fica por fazer.

Ana Drago, deputada do Bloco de Esquerda, no blogue “
Passos Perdidos da Educação”, do Expresso

Listas provisórias de ordenação e exclusão - Concurso de colocação de professores 2009

Consultar
www.dgrhe.min-edu.pt
ou
www.sipe.pt
Reclamação integrada - 5 dias úteis após a saída das listas.
Consultar Aviso nº 9730/2009

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Crianças pequenas trabalham mais que os adultos


Notícia do Diário Digital:

Uma criança pequena trabalha diariamente na escola tantas horas como um adulto e ainda leva trabalho para casa, um excesso que preocupa especialistas e deixa angustiados muitos encarregados de educação, que pedem que em casa os deixem ser apenas pais.

Quando fez a sua tese de mestrado, a investigadora Maria José Araújo, do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Universidade do Porto, concluiu que uma criança pequena em idade escolar trabalha em média nove horas por dia, «o exacto equivalente ao trabalho profissional de vida de um adulto».

«Essas nove horas são sempre em função da matéria escolar. E mais: há pessoas que, quando eles têm um comportamento menos próprio, ainda os castigam com contas e cópias e fazer isto é o mesmo que dizer-lhes que o conhecimento é uma chatice», considerou.

Para esta especialista, depois de trabalharem as cinco horas obrigatórias curriculares na escola, as crianças deveriam apenas brincar, que «é paras elas também uma forma de adquirirem conhecimento».

Os adultos trabalham sete horas e meia e chegam ao fim cansados. Levam trabalho para casa? Não levam!», afirmou, destacando que «há mais de 20 anos que se denuncia este excesso de trabalho e os consequentes malefícios físicos, psicológicos e morais para as crianças».

Os Trabalhos Para Casa (TPC) de Catarina, sete anos, mudaram a vida de Vanda que deixou de ter actividades com os dois filhos e amigos após o trabalho, para chegar a casa o mais rapidamente possível para a criança, diariamente, «escrever por extenso 30 números, duas ou três cópias, escrever três vezes uma determinada tabuada e ainda duas frases do dia, por exemplo».

«Era um exagero. Entrava na escola às 9h, chegava a casa às 18h e ainda ficava uma hora, uma hora e meia a fazer trabalhos. Às vezes eram dez da noite e a miúda a fazer trabalhos», contou.
Há dois meses, depois de perceber que não conseguia sensibilizar a professora, Vanda avisou que Catarina só faria os deveres que a mãe considerasse que ela deveria fazer.

No entanto, esta decisão não deixa confortável nem mãe nem filha: «Não tenho tido tanto stress, mas também não devia ser um papel meu justificar todos os dias para a escola por que é que a minha filha não fez isto ou aquilo. Por outro lado, como ela é boa aluna e muito perfeccionista, o facto de não fazer tudo o que a professora manda deixa-a angustiada».

Este ano, Mariana quase não tem trabalhos, mas a mãe recorda que no ano passado a menina estava quase nove horas entre a escola e o ATL e depois ainda gastava em casa cerca de três horas nos TPC. «Às vezes ela já chorava e eu estava num stress tremendo», contou a mãe, salientando que este ano «é melhor, mas também está a ser mais difícil acompanhar o que ela estuda».

Álvaro Almeida Santos, presidente do Conselho das Escolas, afirma que não há nenhuma indicação expressa sobre os TPC, mas existe a «orientação tácita de que o trabalho que tenha a ver com a escola deva ser feito na escola».

Também Albino Almeida, da Confederação Nacional de Pais (Confap) destaca que «as escolas devem organizar-se de maneira a que os alunos possam realizar os trabalhos que tenham a ver com consolidação de conhecimentos, nomeadamente com o treino em matemática, cálculo e outras matérias, nas aulas de estudo acompanhado».

«As famílias não têm de fazer trabalho que compete à escola», defende, realçando que em muitos casos os TPC são mesmo Trabalho Para Casa, «porque quem executa os trabalhos são os avós e os pais ou irmãos mais velhos», o que pode representar um grande factor de desigualdade.

«Muitas das vezes os TPC exigem que os pais quase dêem aulas em casa, mas os professores não podem esquecer que temos um conjunto de pais de famílias que têm muito baixas qualificações escolares e, portanto, não têm competência para ajudar», disse, acrescentando que «como em muitos casos os TPC contam para avaliação, isto faz aumentar o fosso entre os alunos».

Profissionais livres ou funcionários obedientes?


As instruções dadas aos professores para lerem durante as provas de aferição são a confirmação do projecto deste governo: os professores devem ser reduzidos a funcionários obedientes, que assinam papéis, elaboram registos, formatam páginas, robotizam as escolas, preenchem grelhas, cumprem ordens. É o império da burocracia na escola, fruto de uma visão “gerencialista” que esmaga o prazer de ensinar e a liberdade de aprender. Uma vergonha.

Primeira parte:

"Leia em voz alta: 'Agora vou distribuir as provas. Deixem as provas com as capas para baixo'; 'Podem voltar as provas. Escrevam o vosso nome no espaço destinado ao nome'; 'Querem perguntar alguma coisa?'"
"Desloque-se pela sala, com frequência", "Rubrique o enunciado no local reservado para o efeito".
"Leia em voz alta: 'Ainda têm 15 minutos'; 'Acabou o tempo'. 'Estejam à porta da sala às 11h e 20 minutos em ponto'. 'Podem sair'".

Segunda parte:

"Leia em voz alta o seguinte: 'Agora vão iniciar a segunda parte da prova. Podem começar. Bom trabalho!'"
"Recolha as provas e os rascunhos". "Mande sair os alunos, lendo em voz alta: 'Podem sair. Obrigado pela vossa colaboração!'"

Toda a notícia aqui

A Importância dos Movimentos Independentes na Luta dos Professores


“Os Sindicatos não são a única força motriz da luta que os professores vêm travando contra um Estatuto da Carreira Docente que os penaliza e um modelo de avaliação de desempenho injusto e desadequado à realidade que se vive nas escolas portuguesas.

Foram muitas vezes os professores que se organizaram em Movimentos Independentes que tomaram a dianteira das iniciativas que acabaram por dar alguns frutos. Sem eles não teria existido, por exemplo, a manifestação de 15 de Novembro de 2008, que culminou com a recepção por parte de alguns deputados de um grupo de representantes desses movimentos.

Daí para cá muitas iniciativas foram levadas a cabo por esses colegas, que incansavelmente, se têm multiplicado em encontros, reuniões e deslocações à Assembleia da República. Conseguiram fazer-se ouvir pelos grupos parlamentares e colaboram diariamente nessa luta através dos seus blogues com a divulgação de documentos e informações de valor inestimável.

São absolutamente incansáveis: Ilídio Trindade do MUP, os colegas do MEP, da APEDE e Octávio Gonçalves do PROMOVA. Estes Movimentos vivem e lutam sem fundos nem apoios a não ser a vontade e a força da razão dos seus associados.
Noutro perfil, mas igualmente incontornáveis, são o Ramiro Marques do ProfAvaliação e o Paulo Guinote da Educação do Meu Umbigo, que, dentro de estilos diferentes, vão fazendo um trabalho diário que ficará na história desta luta.

Isto sem desmerecer o trabalho igualmente meritório de alguns bloggers cujo trabalho é fundamental, como Paulo Prudêncio do Correntes, Ricardo do Professores Lusos, Francisco Trindade do Anovis Anophelis e Mário Carneiro de O Estado da Educação e do Resto.

Recentemente Ramiro Marques publicou uma série de entrevistas com alguns destes colegas como forma de reconhecimento da importância do seu trabalho, que eu corroboro inteiramente.

Todos estes blogues estão linkados aqui na Pérola de Cultura e a todos estes colegas eu manifesto publicamente o meu respeito e admiração, pela sua coragem, frontalidade e persistência.”

O nosso agradecimento sincero a Helena Feliciano e ao blogue Pérola de Cultura

Além de fazer entrar toda a genta na escola, o desafio é democratizar o sucesso


A sala do IPJ acolheu gente que veio construir conhecimento, ao sábado, fora da escola, sobre a Escola, sobre a Democracia e sobre a Gente que queremos ser, e sobre a Gente em que os que agora são alunos se poderão transformar. Pusemo-nos a pensar, com a ajuda dos oradores convidados e da experiência de cada um. Predominavam os profissionais da escola, de todos os níveis de ensino (docentes, mediadores, psicólogos), mas também pais/mães, investigadores. Como de costume, em cada qual até se acumulavam mais que uma destas condições...

Diogo Fazenda debateu conceitos (exclusão vs inclusão, prevenção vs acção e limites da intervenção; teoria vs práticas), alargando o conceito de exclusão a um sentido mais amplo, que não se restringe ao trabalho com alunos com necessidades educativas especiais, ou outros normalmente identificados como carentes de estratégias de inclusão. Sublinhou que é desejável trabalhar no contexto turma, com projectos diferenciados turma a turma, cultura de escola assumida e partilhada por todos, com condições para tal, e em que se considere que o essencial na escola são as potencialidades, as necessidades e as vozes dos alunos. Precisamos de nos irmos colocando em causa para aprendermos como profissionais e melhorar a intervenção.

Maria José Simas referiu a escola que se assume como condomínio fechado, e sobre a qual muitas vezes só temos acesso a discurso realizados a partir do exterior. Destacou a presença da exclusão na mentalidade dominante, que a todos nos rodeia e inclui, atravessando gerações. Propôs a escola que se assuma enquanto comunidade, centrada nas aprendizagens e a todos acolhendo e integrando.

Isabel Guerra identificou alguns paradoxos, a partir de conclusões de estudo sobre a incivilidade e a violência como os de Sebastien Roché, reforçando o papel crucial da construção identitária nos modos de aprender, que dependem do envolvimento de cada um. Sublinhou os efeitos da massificação do ensino em toda a escola, não sobre a ciência (que não é afectada) mas sobre os modos de aprender.

Cecília Honório apontou interrogações, identificando desafios: recentrar os discursos da escola e sobre a escola nos alunos, combater o consenso/aceitação da escola dualizada, afirmar o valor de diferentes tipos de saber na escola e na construção do conhecimento, concretizar políticas de língua que modifiquem as práticas nesta matéria, que são exclusivas. Sendo facto que a crise da escola é a crise da sociedade, haverá que abordar a territorialização das diferenças e a gestão das realidades pela escola, e nela, de forma a promover a igualdade no acesso DE TODA A GENTE não apenas à escola mas também ao conhecimento, às aprendizagens. Dividir as Escolas em duas categorias, as escolas de tomar conta e escolas de aprender não é resposta, e sobretudo não permite construir democracia que a si mesma se sustente no futuro. A Escola não faz milagres, mas uma das suas missões deve ser criar uma cultura e concretizar práticas de sucesso CONTRA a exclusão - para o que há que usar conhecimento e afectos, rigor e empenhamento.

O debate alargou-se e fluiu, a mostrar ao vivo a cultura da participação. Em tarde luminosa, sentimos que a claridade foi passando das palavras às ideias, dos olhares aos gestos. Saímos a pensar. Ainda estamos a pensar. Até à próxima!

Em rodapé, a bibliografia
Roché, Sebastian(2006).
Le frisson de l’émeute : violences urbaines et banlieues. Paris: Seuil
Estudo sobre factores influentes nos comportamentos de incivilidade dos jovens: falta de supervisão parental, influência do bando, exclusão escolar precoce. Mais sobre o autor: (2009)
http://www.pacte.cnrs.fr/spip.php?article139 , (até 2006) http://webu2.upmf-grenoble.fr/cerat/Recherche/PagesPerso/Roche.html. Correio: Sebastian.Roche@upmf-grenoble.fr

Tod@s à Manifestação!


domingo, 17 de maio de 2009

Morin defende reforma radical no ensino


Notícia da Agência Lusa:

O filósofo e sociólogo Edgar Morin defende uma "reforma radical" do modelo de ensino nas universidades e escolas, salientando a necessidade de passar da actual 'hiperespecialização' para uma aprendizagem que "integre as várias áreas do conhecimento".

Edgar Morin, considerado um dos maiores pensadores vivos, defende que apenas com esta mudança de paradigma no ensino as pessoas serão "capazes de compreender e enfrentar os problemas fundamentais da humanidade, cada vez mais complexos e globais".

Em entrevista à Agência Lusa antes da sua vinda a Lisboa para participar num colóquio promovido sexta-feira pelo Instituto Piaget sobre os problemas estruturais dos actuais modelos de ensino, o filósofo francês considera que o modelo actual leva a "negligenciar a formação integral e não prepara os alunos para mais tarde enfrentarem o imprevisto e a mudança".

"Temos a necessidade de reformar radicalmente o actual modelo de ensino nas universidades e escolas secundárias. Porquê? Porque actualmente o conhecimento está desintegrado em fragmentos disjuntos no interior das disciplinas, que não estão interligadas entre si e entre as quais não existe diálogo", sublinha.

O filósofo, de 88 anos, critica, por exemplo, que nas escolas e universidades "não exista um ensino sobre o próprio saber", ou seja, sobre "os enganos, ilusões e erros que partem do próprio conhecimento", defendendo a necessidade de criar "cursos de conhecimento sobre o próprio conhecimento".

O autor de "Os Sete saberes para a Educação do Futuro, Educar para a Era Planetária" lamenta, igualmente, que a "condição humana está totalmente ausente" do ensino: "Perguntas como 'o que significa ser humano?' não são ensinadas", critica.

Por outro lado, Morin acredita que a "excessiva especialização" no ensino e nas profissões produz "um conhecimento incapaz de gerar uma visão global da realidade", uma ‘inteligência cega’".

"Conhecer apenas fragmentos desagregados da realidade faz de nós cegos e impede-nos de enfrentar e compreender problemas fundamentais do nosso mundo enquanto humanos e cidadãos, e isto é uma ameaça para a nossa sobrevivência", defende.

"O que proponho é fornecer [aos alunos] as ferramentas de conhecimento para serem capazes de ligar os saberes dispersos", explica.

Sobre a escolha de área que os alunos portugueses têm de fazer no 10º ano, Edgar Morin é peremptório: "Não concordo. Antes de escolherem uma especialização, todos deveriam ter, durante um ou dois anos, cadeiras comuns de cultura geral", em que "devem ser abordados problemas fundamentais do conhecimento, da racionalidade, simplicidade, complexidade e os problemas fundamentais da civilização actual", precisa.

"Só depois de aprenderem a desenvolver as capacidades mentais para atacar os problemas gerais é que deveriam poder escolher o que querem seguir".

Isto porque, garante Morin, "está demonstrado que a capacidade de tratar bem os problemas gerais favorece a resolução de problemas específicos", lembrando que a maioria dos grandes cientistas do século XX, como Einstein ou Eisenberg, "além de especialistas, tinham uma grande cultura filosófica e literária".

"Um bom cientista é alguém que procura ideias de outros campos do conhecimento para fecundar a sua disciplina", afirma, sublinhando que "todos os grandes descobrimentos se fazem nas fronteiras das disciplinas".

Garante também que "apesar de em muitas universidades norte-americanas existir maior flexibilidade no que toca ao modelo ensino", nos Estados Unidos existe o "mesmo problema que na Europa".

sábado, 16 de maio de 2009

Governo suspende mudança nos vínculos dos professores


(Foto daqui)


Numa informação enviada pela Direcção Regional de Educação do Centro para os órgãos de gestão das escolas/agrupamentos é dada a orientação de que devem ser corrigidos todos os procedimentos que tenham transformado nomeações definitivas em contratos de trabalho por tempo indeterminado, os quais foram publicitados em listas publicadas e afixadas nas salas de professores.
Vê o comunicado do secretariado nacional da Fenprof

É verdade que se trata de uma suspensão, não de uma revogação total. É verdade que o governo não mudou as suas intenções: este é o caminho que quer impor a toda a administração pública. É certo que está à espreita do melhor momento para voltar à carga.

Mas não há dúvida que este recuo mostra que vale a pena continuar acordado. Os professores já mostraram a sua força na rua e preparam-se para o fazer outra vez. A Fenprof, os movimentos, e os blogues, alertaram para mais este ataque. O governo temeu o contra-ataque mas não desarmou. Espera por melhor oportunidade.

É por isso que a manifestação do dia 30 de Maio faz ainda mais sentido! É isso que os assusta, é isso que os faz recuar, é isso que lhes vamos dar!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Debate sobre Escola e Exclusão


Sábado, 16 de Maio, 15h, Setúbal
(Auditório do IPJ, Largo Zeca Afonso)


Com:

Isabel Guerra - Professora catedrática de sociologia (ISCTE)
Maria José Simas - Professora na Escola D.João II
Diogo Fazenda - Psicólogo
Cecília Honório - Professora, Movimento Escola Pública

A escola inclusiva é uma aquisição da linguagem, que resulta de um consenso e tende à banalização. Sob a banalização, porém, é cada vez mais urgente perceber e saber:- quem são os “incluídos” e os “excluídos”?- que velhas e novas formas de exclusão perduram sob o silêncio do dado adquirido de que a escola pública não exclui?

Esquecidos, os “outros”, numa cultura escolar dominantemente orientada para um aluno-padrão.

E o que faz a escola com as crianças e jovens cujo contexto familiar e social diverge totalmente da linguagem escolar? Com aqueles que não encaixam nos modelos e estereótipos que a escola espera? Os que não têm livros nas prateleiras, mães escolarizadas e pais bem sucedidos; os que, cada vez mais, não têm de comer, não têm transporte, não têm livros. Ou aqueles/as que, oriundos/as de países de língua oficial portuguesa, ou filhos de pais daí oriundos, são penalizados/as pelo português que não é o padrão da cultura escolar…

E tantos outros/as sobre os quais a escola pública e democrática não só não pode esquecer como deve lembrar todos os dias para se poder reclamar destes atributos.
Com poderemos agir para contrariar esta situação? Para impedir que se percam todas estas crianças e jovens? Que formas teremos de encontrar para actuar sobre, de maneira a alterar este estado de coisas?

Esta forma de discriminação, a mais difícil de combater, não é óbvia e a resolução deste problema implica o seu reconhecimento e investimento em várias áreas. Implica a mobilização de recursos humanos e materiais e não apenas os presentes nas escolas. Porque não é só um problema escolar e sim da sociedade no geral.

Questões que poderão ser abordadas:

- Ensino Profissionalizante (ex: CEF´s): oferta escolar alternativa ou oferta de refugo que reduz a igualdade de oportunidades?
- Os mecanismos de apoio (acção social, por exemplo) e o papel da escola: a centralidade da resolução dos problemas está na escola ou na sociedade?
- Os níveis de proficiência de língua e a relação com o sucesso; Multiculturalismo e multilinguismo?
- Os/as profissionais da educação estão preparados para lidar com os/alunos que fogem ao padrão?- As escolas podem/devem seleccionar os/as alunos/as, nomeadamente criando turmas de nível?
- Quais os custos da retenção? É ela uma solução?