sábado, 6 de junho de 2009

Abaixo o obscurantismo


A propósito de:

Apelo aos pais para que impeçam educação sexual: Plataforma Resistência Nacional está a convidar os encarregados de educação a informarem as escolas que proíbem filhos de ir às aulas.

Comentário:

A lei de educação sexual aprovada no parlamento é um passo importante mas fica aquém do que as escolas, os alunos e a sociedade precisam. No país com a segunda maior taxa de gravidez da Europa, não se compreende como podem existir tantos entraves à distribuição de preservativos nas escolas. O PS recuou para uma formulação ambígua, com medo de enfrentar os obscurantistas. Já não bastava recusar uma disciplina de Educação Sexual e reduzi-la a umas poucas horas por ano e ainda fez marcha-atrás no único ponto claro e que constituía um avanço objectivo e concreto: a distribuição nas escolas de contraceptivos que não necessitam de receita médica.

O problema deste PS é que mais uma vez teve medo de enfrentar as resistências mais medievais. Só que calculou mal. É que essas resistências iam surgir de qualquer maneira como mostra a notícia do DN. Está visto que mais valia fazer este enfrentamento com todas as cartas em cima da mesa, exigindo tudo o que é justo e necessário.

Os osbcurantistas, que usam agora o epíteto de Plataforma Resistência Nacional, são os mesmos que recusaram a legalização do aborto. São os mesmo que nessa altura diziam que o que era preciso era prevenir, era investir na educação dos jovens, para evitar o recurso ao aborto. Tamanha hipocrisia: agora que o aborto está legalizado, não querem a educação sexual. São charlatões.

Acham que os seus filhos devem ser educados no mesmo obscurantismo em que eles foram criados. Têm medo que os filhos falem de sexo na escola porque também têm medo de falar nisso em casa. Só que os filhos já falam de sexo na escola, o que precisam é de um espaço onde o possam fazer sem tabus, com informação e responsabilidade. E isso estes pais querem proibir. Querem proibir os seus filhos do direito a uma sexualidade livre, responsável, autónoma e segura. Querem esconder os problemas para não falarem neles, querem impor aos seus filhos a hipocrisia em que vivem. Por nós, não passarão.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Professores sem salários demitem-se


Notícia do Correio da Manhã:

Uma parte do grupo de 50 professores que deixaram de dar aulas de enriquecimento curricular nas escolas do 1º Ciclo do concelho de Abrantes no dia 1 de Junho – porque a empresa que os contratou não paga os salários – está sem receber há três meses.

Os docentes eram pagos através de recibos verdes, e alguns "não recebem desde Março", disse ontem João Gonçalves, um dos afectados. "São os alunos que ficam prejudicados, mas não podíamos continuar a ensinar de borla e sem perspectivas de quando vamos receber", acrescentou. O problema está num diferendo entre a Câmara e a empresa Lúdico Ideias, que venceu o concurso das aulas de Educação Física e Expressão Musical.

A vereadora da Educação, Isilda Jana, justifica a rescisão do contrato, datada de Abril, com o serviço prestado, que "foi sempre muito mau" adiantando que a Câmara pagou as horas contratadas até final do ano lectivo. O dono da empresa, Joaquim Albuquerque, garante que pagará aos docentes quando a autarquia lhe entregar cem mil euros em dívida.

Comentário:

Uma vergonha. O Governo privatizou parte do currículo, entregando-o às Câmaras Municipais que por sua vez contratam empresas que por sua vez contratam professores por dá cá aquela palha, ganhando uma miséria. Assim vai o país dos recibos verdes. Assim vai a precariedade que atinge em cheio a classe docente. Tudo isto quando milhares de professores ficam de fora dos concursos nacionais. Resta-lhes o desemprego, ou a precariedade das Actividades de Enriquecimento Curricular, ou a precariedade nas empresas de explicações, cujo florescimento só mostra que a escola não tem todos os recursos humanos necessários ao sucesso de todos os alunos. Perdem os professores, perdem os alunos, perdem as famílias, perde toda a sociedade.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Preparar já uma nova grande acção de massas


Vota no inquérito na coluna do lado direito deste blogue

Depois da manifestação de 30 de Maio, um sucesso inegável que teve a grande vantagem de voltar a unir os professores, torna-se necessário começar, desde já, a preparar uma nova acção de massas que mantenha o governo à defesa e que possa contribuir de forma decisiva para mudar as políticas que atacam a escola pública.

Esta luta não se faz de uma, duas, três ou quatro batalhas, ela é prolongada, mas em breve pode trazer os primeiros frutos “de peso” aos professores, se ninguém dormir na forma. Para continuar precisamos de todos: sindicatos, movimentos, blogues. Sabemos que sem os sindicatos torna-se muito difícil garantir mobilizações gigantescas. Como nota o Miguel Pinto, a Fenprof tem sido um motor essencial desta luta que “pega, ou não, de empurrão”. Com efeito, nunca é demais começar já a empurrar.

Até porque continua tudo em jogo e a verdade é que as medidas do governo começam agora a revelar alguns dos seus aspectos mais gravosos. É assim com o novo modelo de gestão, que facilita o compadrio, o clientelismo e o autoritarismo (vê os posts do Umbigo aqui e aqui), é assim com o novo modelo de avaliação (uma salganhada totalmente decredibilizada, até pelo próprio Conselho Científico de Avaliação) e, naturalmente, com a divisão da carreira arbitrária e injusta. A somar a tudo isto, o Ministério continua apostado em espalhar o medo nas escolas.

Agora que os professores se voltaram a unir depois da saga dos objectivos individuais, seria errado voltar a provocar a divisão com a questão da entrega ou não da ficha de auto-avaliação. Devemos aprender as lições: muitos milhares não entregaram os objectivos individuais e isso vale muito. Mas a maior parte entregou e isso também vale para o Governo. Sabemos que a não entrega da ficha de auto-avaliação – sendo a entrega obrigatória e não de “obrigatoriedade muito duvidosas” como eram os OIs - teria uma adesão muito baixa e só serviria para dar mais trunfos ao governo, e para voltar a pôr os professores de costas voltadas uns para os outros (a este respeito, leiam-se dois posts com visões diferentes: um do Umbigo, outro dos Professores Lusos)

Acreditamos que uma nova acção de massas no início do próximo ano lectivo, seja ela uma greve ou uma manifestação, terá uma participação ainda maior que a manifestação de 30 de Maio, que foi realizada numa altura muito complicada para os professores. Uma nova accção de massas pode ser o que falta para impôr um recuo mais significativo nas políticas deste governo, além de mais uma vez pressionar com outro impacto numa altura de eleições legislativas. Uma nova grande accão de massas aproveita a embalagem da re-união dos professores conseguida a 30 de Maio. E quanto mais cedo começarmos a falar dela, quanto mais cedo for projectada, maior participação terá e mais efeitos vai conseguir, ainda antes de se realizar. Basta lembrar que a uma semana da manifestação de 30 de Maio, o governo suspendeu as alterações aos vínculos dos professores, à espera de uma melhor oportunidade para voltar à carga.

Esta discussão deve começar quanto antes nas escolas, auscultando os professores. Mas porque importa falar já, começamos por promover o seguinte inquérito, no qual podes já votar na canto superior direito deste blogue (vota apenas numa resposta):

Além de penalizar nas urnas o PS, o que consideras mais necessário para ajudar a derrotar de vez a política (des)educativa deste governo, no início do próximo ano lectivo?

1) Uma greve nacional
2) Uma manifestação nacional
3) Uma greve nacional de vários dias
4) Manifestações regionais/locais

Se consideras que há outra opção melhor, diz qual, comentando este post

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Inquietações pedagógicas


«A criança não é uma garrafa que há que encher, mas um fogo que é necessário atear.»

Montaigne

Muito bem lembrado pelo blogue “
Revisitar a Educação

As lutas têm muito em comum, a começar na precariedade


“A luta contra a precariedade e a instabilidade estão no centro das preocupações. A concentração nacional frente à Assembleia da República, a mobilização nos Institutos Politécnicos com a recolha de um Abaixo-Assinado (Engenharias paralisadas no Porto, Lisboa e Coimbra ) e uma reunião sobre a situação dos Leitores na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, realizada ao fim da manhã, foram os pontos altos desta jornada convocada pela FENPROF e pelo SNESup.”

Vê mais no
site da fenprof e nas notícias do Diário Digital e do Público

Queremos muitos “votozinhos” pela cabeça da ministra


A Ministra da Educação trata a democracia por “votozinhos” (vê aqui). A vida de Maria de Lurdes Rodrigues não é nada fácil. Não é fácil levar com mais uma mega-manifestação, não é fácil ser odiada pela quase totalidade dos professores, não é fácil ouvir um órgão criado por si desdizer o que andou a apregoar. E, ainda por cima, ter que aturar os deputados? Não é fácil. Aturar a democracia é difícil. E quando ela nos pode vencer, então passa a chamar-se “democraciazinha”.

A máscara já tinha caído há muito tempo mas a manifestação de 30 de Maio atirou-a para o espaço. Esta ministra vai-se embora, a menos que o PS tenha maioria absoluta. Mas é preciso garantir que a política que trouxe vai embora consigo. Como bem se cantava na manifestação: “Ministra, Adeus! Ministra quando fores leva contigo os Directores!”

Imagens que marcam

Uma, e outra, e outra vez – as vozes de quem faz a escola pública


(foto roubada ao ProfAvaliação)

Vieram de novo, aos milhares, de todos os pontos do país. Voltaram a encher as ruas de Lisboa com a sua luta, e a sua perseverança na defesa de um modelo democrático da escola pública. Dizendo "categoria só há uma - professor e mais nenhuma". Nem mais.

Ao longo destes últimos quatro anos, os professores têm sido a voz mais forte e mais ousada na contestação ao Governo. E são-no porque têm sido eles a experimentar, mais do que em qualquer outro sector, o que significa a "empresarialização" dos serviços públicos.

Alguém pensou: "temos que alcançar os níveis europeus em matéria de resultados escolares, mas sem fazer o esforço de investimento que fizeram os outros países europeus". A solução do Governo PS: indicar um culpado, os professores; pressionar os resultados; e juntar a propaganda.

Quatro anos do triunvirato Mª Lurdes Rodrigues - Valter Lemos - Jorge Pedreira, resumem-se a isso. Resume-se a duas ideias centrais: primeiro, uma escola organizada como uma cadeia de comando capaz de produzir, rapidamente, resultados "politicamente" simpáticos para quem governa; e segundo, uma classe docente domesticada pelo medo e pela concorrência interpares, que cumpra ordens sem pinga de crítica, e saia baratinha na factura salarial do Ministério da Educação (ME). Toda a arquitectura legislativa, toda a orientação política do ME seguiu neste sentido. Modelo de avaliação, modelo de gestão, estatuto do aluno, e o Magalhães para ajudar à festa...

Quando se provou que os professores não se iriam deixar humilhar e enxovalhar pelo Governo, e que estavam dispostos a lutar, veio a chantagem e as ameaças do ME - ameaça de processos disciplinares, de não progressão na carreira, o afastamento e a intimidação de Conselhos Executivos que não vergavam.

Mesmo assim, uma, e outra, e outra vez, os professores saíram à rua. Porque sabem o que está em causa. Sabem que hoje a escola pública enfrenta uma crise, mas que não pode perder a confiança da opinião pública. Sabem que a multiplicação burocrática não trouxe rigor nem exigência às práticas escolares, apenas aumentou o espaço de manobras dos burocratas políticos de serviço. Sabem que se criaram e inventaram novos problemas, sem nunca resolver os velhos e determinantes problemas do sistema educativo português - o abandono e o insucesso escolar. Sabem que hoje as escolas enfrentam todos os desafios - a herança da iliteracia e a globalização mediática - ; sabem que à escola se pede todas as funções, da educação clássica, às novas competências, e ao apoio social às famílias e aos excluídos; e sabem que lhes faltam todos os instrumentos para fazer esse combate, e essa tarefa.

Quem saiu à rua sabe exactamente o que quer - pacificar as escolas, esquecer Maria de Lurdes Rodrigues, investir no sistema educativo e nos profissionais que fazem a escola pública. Em Setembro ou Outubro, os professores sairão de novo à rua. De outra maneira voltarão a dizer ao PS que não aceitam ser humilhados e perseguidos. Tenho a sensação que dessa vez o PS vai ouvir com muito mais atenção.

Ana Drago, publicado em esquerda.net

terça-feira, 2 de junho de 2009

Números como se fossem balas


Por esta altura, quando o ano lectivo está prestes a acabar, surgem invariavelmente os números. Para todos os gostos e demagogias. Os números dos chumbos. Em linguagem burocrático-ministerial: Os números das “retenções”.

Um diário desta semana informava que uma em cada quatro pessoas que frequenta a escola básica até ao 9º ano chumba. Trata-se obviamente de Portugal, o campeão dos chumbos.

Não sabemos nunca como é entendida esta triste notícia que nos faz corar de vergonha. Com morbidez, certamente, por parte dos mais altos responsáveis ministeriais, comprazidos em poder continuar a perseguição à classe docente, transformada em bode-expiatório.

Com impotência, talvez, pela grande maioria dos professores e professoras.
Com revolta, seguramente, das vítimas da crise da escola: Alunos e alunas, suas famílias, grande parte da classe docente.

Mas nem uma palavra séria ouvimos, uma decisão corajosa, um compromisso, um plano de emergência para sairmos deste “fado”.

Terá que ser a classe docente a impor soluções, a reivindicar apoios, a mobilizar solidariedades, a salvar a escola pública.

O problema sempre foi: por onde começar? Pelo pessoal técnico de apoio especializado? Por alterações legislativas? Pela revisão dos programas?

O mal do ensino português vem de longe, de há mais de um século. O que falta é romper o círculo vicioso da herança da iliteracia da nossa sociedade e a incompetência e desumanidade dos sucessivos governos e ministérios da educação.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Uma grande lição


(em cima foto de Ana Candeias e por baixo contra-capa do jornal público do dia 31 de Maio)

Calámos o medo!

Todos sabemos os riscos que esta manifestação comportava: calor, cansaço, desmoralização, final de ano lectivo.

Todos sabemos que, mesmo assim, o governo tinha medo desta manifestação, e apostou tudo no seu fracasso. Basta recordar o que se passou na semana que precedeu este protesto massivo: o governo suspendeu temporariamente a mudança dos vínculos dos professores para tentar eliminar um dos motivos da contestação. A ministra veio dizer que a sua reforma estava ganha e que os professores estavam derrotados, que a esmagadora maioria tinha entregue os objectivos individuais e aceitava as novas leis.

O governo apostava tudo em ir para as eleições com a propaganda oleada: tinha conseguido dividir os professores e calar as reistências, alardaria para a opinião pública que “custou mas foi”.

Só lhe faltava a cereja no topo do bolo: bastava que a manifestação tivesse poucas dezenas de milhares de professores, bastava que os títulos dos jornais, os editoriais e as imagens televisas tivessem dito que os professores desistiram, que, enfim, a reforma estava mesmo ganha. Bastava que a esmagadora maioria tivesse ficado em casa.

Mas os professores estragaram-lhe a festa. Calaram o medo e calaram o governo. 70 mil professores na rua desmentiram a propaganda e a manipulação. Provaram que, depois da odisseia dos objectivos individuais, continuam unidos em defesa da escola pública e contra uma política arrogante, persecutória e que quer fazer da escola uma repartição do Estado e uma fábrica de estatísticas, com chefes e súbditos.

O esforço de sindicatos, movimentos e blogues na convocação e mobilização para esta manifestação foi essencial para que ela fosse um sucesso e isso foi até reconhecido pelo porta-voz da plataforma sindical. Todos os que acederam ao convite do Movimento Escola Pública para o apelo “
Encontramo-nos ao Sábado”, que não apaga as muitas diferenças que existem entre nós, demonstraram grande maturidade e contribuiram para uma grande manifestação: soubémos apontar todos aos mesmo tempo contra o nosso inimigo comum e ganhámos esta batalha.

A prova disso foi a forma envergonhada com que o governo reagiu à manifestação. Teve que recorrer ao plano B e ao plano C. (O plano A era dizer: “estão a ver? Tão poucos? Está ganho!). O plano B foi dizer que havia aproveitamento partidário da oposição mesmo que a oposição tenha estado desde a primeira hora com os professores e que não fosse a maioria absoluta o parlamento já teria decidido um caminho diferente para a Educação...O plano C foi dizer que vai continuar a fazer a sua política e que os professores têm o direito de se manifestarem....ou seja, enfiar a cabeça na areia.

Foi uma grande lição que lhes demos. No próximo Domingo vem a outra lição. A maioria absoluta começa agora a desfazer-se.

São os professores que estão ao ataque e o governo à defesa. A dimensão extraordinária do 30 de Maio dá outra força para as negociações que se avizinham e condicionará a postura do próximo governo.

Não colocamos de parte novas acções de luta ainda este ano lectivo, os professores mostraram que são capazes. Mas, sem dúvida, a próxima cartada forte, a próxima acção de muitas massas, deve ser apontada para Setembro: só o facto de falarmos já nela coloca o medo do lado deles.

E nessa altura não haverá tanto calor nem tanto trabalho na escola nem o medo de sermos poucos, que afinal até fomos muitos. Nessa altura rebentamos de vez com a maioria absoluta e abrimos caminho para uma escola democrática, inclusiva, motivada, em que a força da cooperação esmagará a paranóia da competição.

Movimento Escola Pública

Com o 8 não dá, pá!

Antero Valério, no blogue "Anterozóide"

O chico-espertismo


Entrevista a José Gil:

P- No seu entender, qual é o objectivo deste modelo de avaliação?

JG - Em Portugal havia uma espada de Damocles sobre o Ministério, todos os Ministérios, que é o dinheiro. Por outro lado, há um problema real de que os sindicatos não falam.
A nossa escola não estava boa. Muitos professores, ou pelo menos uma parte deles, não têm qualificações. Com a avaliação, alegadamente, matavam-se dois coelhos: reduziam-se as despesas, reduzindo o pessoal, e punha-se fora os que não eram bons.
Mas o que é que aconteceu?. Muitos dos que eram bons é que saíram. sairam. Porquê? Não aguentam. E o que é que eles não aguentam? Não aguentam não poder ensinar, não aguentam não poder ter uma relação em que precisamente se construa um grupo em que o professor age, em aprende ensinando, em que os alunos querem.
Tem que haver avaliação. Não pode é haver a inversão da subordinação da avaliação porque agora se estuda para se ser avaliado. Veja as Novas Oportunidades, para que é que serve?

P- Para fornecer um diploma?

JG- É o chico-espertismo que entrou na escola. Vamos não trabalhar para obter um diploma.

P- No seu livro alega que há como que um objectivo maior. Conjugando as políticas e omodo como o Ministério reagiu à contestação dos professores, está-se perante uma estratégia de domesticação?

JG- Isso parece-me evidente. É um projecto maior, que talvez não seja muito consciente na cabeça dos nossos dirigentes e, em particular, na do primeiro-ministro José Sócrates.
A ideia intuitiva, ele ainda tem intuições, é a de que o autoritarismo é um método económico. Resolvem-se mil coisas. Há essa ideia: funciona ser autoritário. Uma vez vendo que funciona, vamos estender. Os portugueses querem um certo autoritarismo, nós tomos, que estamos desnorteados, perdidos. O autoritarismo é um meio de governo. Não é traço qualquer. E como não há quase resposta a este autoritarismo, ele rebate-se, plasma-se, na realidade.

P- Mas existe contestação. Por exemplo, precisamente por parte dos professores ao longo de todo este ano.

JG - E qual foi a resposta do Governo? Foi uma resposta autoritária extraordinária que foi dizer: você não existe. Faz-se como se 120 mil manifestantes não existissem e isso vai paralisar, vai desmoralizar. A primeira fase é a perplexidade, depois vem o desânimo, depois vem a depressão. Certamente que muitos que pediram a reforma antecipada estavam na manifestação.

P - Ficámos com uma escola pior?

JG- Arriscamo-nos a isso. A escola já não era boa. A escola precisa de reformas, é necessário pensar uma avaliação, mas para pensar uma avaliação temos primeiro que pensar em conteúdos. A primeira das coisas a fazer é revalorizar os professores, agora. A relação geral dos alunos relativamente ao saber é de rejeição. A ideia do professor como alguém que abre as portas para o mundo acabou ou está em vias de acabar. Isto tem de ser restaurado.
Depois tem que se parar com a avaliação multiplicada a todo o instante. Estamos sempre a comparar-nos. O mal desta avaliação é que ela compara e a competitividade, a rivalidade, que existem numa escola, que são necessárias para a aprendizagem, torna-se inveja.

P - A avaliação entre pares, defendida neste modelo, pode acentuar ainda mais esse risco?

JG- Por mais voltas que dê, não vejo como isso possa ser feito no clima actual. É muito mais propícia que toda uma série de rivalidades não saudáveis comecem a aparecer, para que novamente a esperteza arranje canais para que a avaliação seja deturpada, mascarada. Para mim. é envenenar ainda mais. A avaliação tem de ser feito por um terceiro. Alguém de fora, mas da mesma disciplina. Não pode haver professores de Educação Física a avaliar um professor de Português.

P- O chico-espertismo de que fala é uma característica dos portugueses, que encontrou agora um campo mais propício?

JG - Foi o Marcelo Rebelo de Sousa que disse que Sócrates era um meio chico-esperto. Quando há uma característica pessoal de um chefe e este tem a possibilidade de a tornar real, transformando mecanismos psíquicos em comportamentos, isso provoca patologias colectivas. Mas patologias não só das pessoas, como patologias do funcionamento dos serviços. E o que parece estar a constituir-se é um chico-espertismo, uma palavra horrível.

P - O que é espera do próximo ano lectivo?

JG - Nada. Eu estou desolado. Estou desolado com o que está a acontecer, porque esperava muito da educação.

P- Nesta legislatura?

JG- Sim, no princípio. Mas foi muito rápido ver que a coisa não ia bem. É uma oportunidade perdida. Quando ouço os economistas dizerem que Portugal pode ficar entalado, há qualquer coisa no meu ser português que vibra mesmo. Porque podíamos ser outros. Temos terrenos de afectividade em escolas que já não existem noutros lados. Considero muito grave a quebra do laço entre alunos e professores. É tudo mal feito. Há que inflectir, revalorizar os profesores.

Vê aqui a entrevista na íntegra

Diferente valorização dos saberes


Após uma década do inicio do ensaio das Provas de Aferição, ainda que, com um percurso irregular e em função das diferentes estratégias das equipas governamentais, embora assumidas como que um imperativo nacional pelo actual Ministério da Educação, não parece que estejam de facto a ser usadas, como instrumento de medida de sucesso, se, se tiver em conta a “tabela” pré-concebida pela actual politica educativa.

As contradições, relativamente ao pseudo indicador de medida do sucesso, que a todo o custo e para as estatísticas se quer incutir, são desmistificadas pelos próprios alunos, que não tiveram dúvidas em afirmar, e não mentem, que acharam as provas fáceis, sendo tão verdadeiros, ao ponto de haver quem acrescente, que, só achou difícil a composição por não gostar de ler.
A autentica promoção do facilitismo que vem caracterizando estas Provas de Aferição, transformadas em jornadas de propaganda de sucesso imediatista, que segundo tais instrumentos de medida, estão a mudar virtualmente a realidade, são tanto mais preocupantes, quando evidenciam diferente valorização dos saberes, reduzindo excessivamente a matéria dada, como denunciam associações e sindicatos de professores.

Este tipo de avaliação, condiciona mesmo negativamente o processo de ensino e aprendizagem, dado que pela sua própria natureza, não consegue avaliar a totalidade dos conhecimentos e das competências que fazem parte do programa obrigatório (Português e Matemática).

Para a realização destas Provas, assumidas empenhadamente pelo Ministério, ao ponto do celebre “manual” que chega a ridicularizar os docentes, e que impõe medidas rigorosas dentro e fora da sala de aula, foi preciso garantir as condições logísticas e as indispensáveis ao êxito dos dois dias em que o país ficou com os olhos fixos na escola do sucesso, mesmo à custa do sacrifício das aulas normais e as que contam, já que implicou o destacamento dos professores “revisores” ou “classificadores” e os “aplicadores” das Provas a quem era até sugerido, “Não procure decorar as instruções ou interpretá-la, mas antes lê-las exactamente como lhes são apresentadas ao longo deste Manual”. Só faltou mesmo um relógio em cada sala de aula, como era indicado também no manual de instruções.

Mas ao contrario das Provas de Aferição que não contam para a nota, os testes que contam mesmo para as avaliações por cada um dos três períodos lectivos, os resultados que se debatem nos pedagógicos sobre as negativas nas principais disciplinas e as estratégias diversificadas para melhorar, as negativas ou positivas que resultam na progressão ou retenção dos alunos. Estes Testes decisivos, estranhamente não merecem no mínimo, algumas das condições logísticas básicas e de valorização, relativamente ás Provas de Aferição que os alunos têm consciência que não são determinantes, pese embora todo o formalismo patético, como “Podem sair. Obrigado (a) pela vossa colaboração!”. Ora, se ironicamente a conclusão dos especialistas, for de que os testes feitos em função da matéria dada em sala de aula pelos professores, são os responsáveis pelos números do insucesso, então o pretenso instrumento de medida, impor-se-á com aparente rigor e métodos uniformizados, nivelando por baixo o sucesso da educação, continuando a desacreditar a escola pública e promovendo desde logo na adolescência a outra grande aposta da governação de Sócrates, como são as Novas Oportunidades.

José Lopes (Ovar)

domingo, 31 de maio de 2009

Foi bonita a festa pá!





























Fotos de Ana Candeias

Para saborear...








Fotos de Ludgero Brioa

Para quem não acreditava…sem palavras





De cima para baixo: foto da agência Lusa da manif de ontem, panfleto do Movimento Escola Pública distribuído na manifestação, capa do Diário de Notícias deste Sábado

E agora, as palavras:

Que valem sempre pouco, ao lado das imagens de mais um momento extraordinário da força e da razão dos professores na defesa da escola pública.

Valeu a pena. Apesar dos exames, apesar do calor, apesar das provas de aferição, apesar dos afazeres infindáveis de final de ano lectivo, apesar do cansaço acumulado, apesar dos muitos que entregaram os objectivos individuais, os professores calaram o medo e voltaram a encher a Avenida da Liberdade. Foram quase 80 mil, para não fugir à média dos 100 mil (100 mil, 120 mil, 80 mil)…

Ou seja, mais de metade dos professores deste país, pela terceira vez em pouco mais de um ano, vieram para a rua gritar. E calámos a ministra e o governo. Ouviram o governo dizer que a manifestação foi pequena? Ouviram a ministra dizer que a manifestação foi a prova de que precisava de que a sua reforma está ganha? Não. Não ouviram porque os professores não deixaram. Eles achavam-nos derrotados. Eles tiveram uma surpresa desagradável.

Os professores mostraram que continuam unidos e que recusaram terminar o ano lectivo de costas voltadas e desconfiados uns dos outros. Esta manifestação colocou-nos outra vez na primeira posição. Mostrámos que temos força, estamos ao ataque, e deixámos os burocratas à defesa.

Vamos lá saborear a lição que lhes démos.

A Luta é dura, mais dura é a razão que a sustem


Fomos de novo para a rua, sim senhor. A luta continua bem acesa em nós porque a mantê-la está a defesa da Escola Pública e dos seus valores.

Não concordamos com as políticas educativas do PS e dissemo-lo alto e bom som, em vésperas de eleições. E não estamos sozinhos, como se pode ver pelo cartaz que uma docente carregava consigo.


“Ministra, adeus, Ministra quando fores leva contigo os Directores.”

“Esta avaliação, p´ra quê?”

“1,2,3, já cá estamos outra vez, 4,5,6, não queremos estas leis, 7,8,9, é a escola que nos move.”

“Se isto não mudar, nós havemos de voltar. ”

Foram algumas das palavras de ordem que nos acompanharam desde o Marquês de Pombal até aos Restauradores.

Seguem-se links para algumas notícias:

80 mil chumbam política da ministra

Professores vão protestar "as vezes que forem precisas"

Novo protesto de professores em Lisboa

Oposição promete acabar com modelo de avaliação

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Vamos ser muitos/as. Traz um/a amigo/a também


O ponto de encontro do Movimento Escola Pública, para os professores das escolas sem cortejo próprio, é no cruzamento da Rua Castilho com a Rua Joaquim António Aguiar (a que sobe do Marquês para os Amoreiras).

Encontramo-nos Sábado.