segunda-feira, 29 de junho de 2009

Provas de aferição: fim ou meio?


Para mim, não é um espanto ler o que a nossa ministra da educação diz sobre os resultados das provas de aferição. Não se admirem vocês, os que estão a ler este comentário, do estado em que se encontra o ensino e a aprendizagem no nosso país.

Para os que não são professores, informo que a experimentação das provas aferidas teve início em 1990/1991. Encontrava-me, nesses anos, no Instituto de Inovação Educacional, organismo que funcionava "quase à parte" do Ministério da Educação. Ali, trabalhava-se por projecto e não por "horário a cumprir". Por isso, havia entusiasmo, dedicação, vontade de aprender, de analisar, de saber (quando necessário, verificava-se a nossa presença também aos domingos). A equipa (5 pessoas) era "novata" em investigação mas havia uma coordenadora excelente, honesta e investigadora experiente. O objectivo principal - nessa altura - era, de facto, ver o que necessitava de melhorar no sistema educativo.

Passados estes anos todos, não sei - como professora "normal" - o que tem sido estudado. Era também o início da aplicação dos novos programas de Língua Portuguesa e de Matemática (em 2010, haverá a substituição dos mesmos, repare-se!). Poderia/deveria ter sido feito um estudo longitudinal, nomeadamente. Se existe, desconheço. Alíás, é vulgar não haver divulgação de dados aos que de facto estão nos locais de ensino - professores/escolas.

Neste momento, não são os resultados que me interessam, se quero melhorar o que faço. O que gostaria de ver era uma análise de dados. Onde está??? Para a ministra, como as diferenças não são significativas, certamente não lhe interessa saber se o "fosso" (em linguagem popular) entre os "alunos excelentes" e os "piores" é maior ou menor, por exemplo. E, para além disso, analisar a origem desses "excelentes" e "piores" alunos, o método de ensino-aprendizagem que tiveram nas escolas que frequentaram e, especialmente, o método utilizado pelos professores que os leccionaram. Talvez assim, dirigindo todo o trabalho às causas do problema, pudesse até ter dados para uma verdadeira AVALIAÇÃO DE PROFESSORES E DE ESCOLAS, e em seguida, proporcionar a formação necessária que faz parte de qualquer avaliação. Só que, assim, não poderia considerar os números como um fim a atingir, mas antes, como um meio de melhorar.

Fátima Homem Cristo

Onde está a avaliação contínua?


A questão dos exames nacionais tem tanto de velho como de injusto. Todos os anos, milhares de estudantes realizam uma série de provas de âmbito nacional, com vista à conclusão do ensino secundário. Contrariando todos os modelos de avaliação contínua (propagandeados, na teoria, pelo próprio Ministério da Educação) e desafiando os critérios pedagógicos, a nota do exame tem o mesmo valor que a da frequência do secundário. Simplificando, quer isto dizer que o desempenho de um aluno durante as duas horas e meia que dura a prova é posto em pé de igualdade com o trabalho que um aluno fez durante três anos. O melhor que se pode dizer é que os exames nacionais potenciam situações injustas.

Dizem os defensores dos exames nacionais que estes se caracterizam pela sua homogeneidade em todo o país, em nome da "igualdade de oportunidades" e da "imparcialidade das várias escolas”. Esquecem-se, porém, de que o país não é homogéneo. Ou seja, temos uma mesma prova de exame – que, recorde-se, vale metade da nota de entrada na faculdade – para realidades sociais, culturais e económicas completamente diferentes. Vejamos um exemplo: no último ranking oficial do Ministério, uma das escolas que ficou pior posicionada foi a Azevedo Neves, na Cova da Moura (Damaia). Nesta escola, a esmagadora maioria dos alunos são imigrantes ou filhos de imigrantes, que não têm o português como língua materna. Mais uma vez, aqui se nota que aquilo que era supostamente uma prova uniformizadora acaba, ela mesma, por criar, veicular e agravar desigualdades sociais de partida.

A lei da concorrência, pilar fundamental do neoliberalismo, faz-se sentir também na educação. Esta exclui qualquer possibilidade de opinião crítica e desviante da considerada correcta e privilegia o “sucesso escolar” – obtido a qualquer custo –, em detrimento dos conhecimentos e das competências pessoais e pedagógicas adquiridas. Não basta ir à escola; é preciso ter "sucesso escolar". Para isso, contribuem uma série de factores socioeconómicos e culturais. As aprendizagens que as crianças e jovens fazem fora da escola, na rua, não são valorizadas pelo sistema de ensino. As crianças da Azevedo Neves são, muito provavelmente, sobredotadas para a luta pela sobrevivência em condições adversas, mas subdotadas para as competências exigidas na sala de aula. Ou será o sistema de ensino subdotado de métodos e conteúdos que se adeqúem à vida daqueles estudantes?

E, se dúvidas houvessem sobre a urgência das mudanças estruturais na nossa escola pública, os resultados desfazem qualquer eventual equívoco. Ano após ano, as desigualdades estão bem presentes nos resultados dos exames – com uma clara superioridade do ensino privado sobre o ensino público, das escolas do litoral sobre as escolas do interior, das escolas dos grandes centros urbanos sobre as escolas das zonas rurais... Para comprovar isto, basta dizer que em Portugal 75% dos filhos de pobres são, também eles, pobres. A juntar a isto, há que referir que a taxa de abandono escolar é de 39% (contra os 15% da média da União Europeia). A primeira conclusão a tirar destes números é a de que o sistema de ensino falha naquela que deveria ser a sua prioridade: abrir espaços de formação para os alunos, combatendo os problemas sociais de raiz.

Verdade seja dita, os rankings nacionais das escolas têm também a sua utilidade: mais não seja, a de mostrar que importantes mudanças estruturais são necessárias... e urgentes. Não podem é apenas servir para ser notícia de abertura de telejornais, num processo de punição e culpabilização de professores e alunos. Hoje, mais do que nunca, dizemos que uma escola democrática tem que assumir os alunos como prioridade. Sem excepções.

João Curvêlo

domingo, 28 de junho de 2009

Sinais de marcha-atrás


Quando avançou contra tudo e todos na implementação do seu modelo de avaliação, o governo dizia que das quotas não prescindia, porque elas eram a substância do seu modelo, porque elas permitiam distinguir os melhores dos piores e assim garantir o mérito na avaliação dos professores (basta até ler o primeiro parágrafo do texto do PS para defender este modelo de avaliação).

Esta tese foi sempre contestada pelos professores. O sistema de quotas é absurdo, injusto e não garante melhores desempenhos. O governo só o implementou por motivos economicistas. Sobre isso leia-se este texto do blogue De Rerum Natura

Agora, o governo vem dizer que as quotas são apenas importantes “numa primeira fase em que o processo está em fase de implementação”. Ou seja, admite recuar (leia também esta notícia).

Obviamente, não sabemos se se trata ou não apenas de uma manobra em tempos de campanha eleitoral. É muito provável. Mas duas coisas sabemos de certeza:

1) Começam a existir sinais de que a longa luta dos professores pode estar prestes a alcançar algumas vitórias significativas. São apenas sinais e não passarão disso se não mantivermos a firmeza dos protestos.

2) Fica mais uma vez demonstrada a arrogância e lata descomunal deste governo. Quando percebe que não tem condições para avançar com uma medida, quando percebe que tem que fazer cedências para não se estatelar no chão, inventa sempre a desculpa de que afinal até nunca pensou em ir verdadeiramente para a frente com essas medidas. Tem mau perder.

A precariedade dos professores portugueses


Ora cá temos mais um estudo realizado pela OCDE e não por qualquer outra desacreditada entidade ou instituição, ainda que mesmo assim o Ministério da Educação possa tentar mais uma vez desmentir. Mas as verdadeiras conclusões e o veredicto final cabe sempre ás próprias vitimas das consequências da precariedade, neste caso os professores, mas naturalmente também todo o meio envolvente resultante do seu trabalho marcado por condições de trabalho que segundo a OCDE são os mais precários.

Trata-se do primeiro estudo realizado pela OCDE sobre as condições de trabalho dos docentes portugueses e as conclusões são preocupantes. Ou seja, 32,4% não têm contratado permanente, o dobro da média dos 23 países analisados. O estudo revela também que 17,4% dos professores portugueses têm contratos inferiores a um ano. Os sindicatos confirmam que muitos docentes estão há mais de 15 anos em situação precária.

Portugal é assim o campeão da precariedade docente, mesmo atrás de países como a Eslováquia, Turquia, Estónia, Brasil, Malásia e Polónia, sendo o único com valores inferiores aos 70% de estabilidade contratual (67,6%), contrastando com a média dos restantes países, que é de 84,5%.

Com a avalanche de docentes a “fugirem” deste inferno em que se transformou o ambiente em meio escolar, será que os recursos humanos que ficam ao dispor dos Directores, como “lideranças fortes” nas escolas, são um exercito de mão de obra descartável, precariezada, como prova este estudo, sujeito a politicas educativas mais preocupadas com estatísticas e em função de números? Muito pobre vai ficar a escola pública e a democracia e sobretudo o exercício de cidadania tão propagandeado, mas cada vez menos exercido, talvez por realidades já vividas nos dias de hoje, mesmo em democracia.

São pois estudos como este, que devem merecer atenção das próprias comunidades educativas, para que a escola não se transforme numa “empresa” de infelicidade e de falta de referenciais marcantes pela positiva para o futuro das próximas gerações.

José Lopes (Ovar)

Também damos as boas notícias


A partir do ano lectivo de 2009-2010 a organização e gestão das bibliotecas escolares estará a cargo de professores bibliotecários a tempo inteiro que devem desenvolver estratégias e políticas que garantam a rentabilização de recursos e investimentos e a(s) coloquem ao serviço da escola, do processo formativo e das aprendizagens dos alunos.

“Mais de 1500 horários a tempo inteiro é bom, e a portaria que os cria (professores bibliotecários + coordenadores interbibliotecas) ajuda a melhorar as bibliotecas escolares e a escola pública. Do meu ponto de vista, claro. E ainda traz mais vagas de docentes nas escolas/agrupamentos, em todo país. Longa luta de mais de 13 anos.”
Maria José Vitorino

Vê aqui mais

sábado, 27 de junho de 2009

FENPROF e ME, o estado das coisas...



Face a todos os acontecimentos recentes, seria de esperar uma verdadeira mudança de atitude por parte do Ministério da Educação, em relação ao Estatuto da Carreira Docente e ao Modelo de Avaliação: a admissão pública do nosso Primeiro-ministro de que esta avaliação foi um erro; o Conselho Científico da Avaliação de Professores, criado pelo próprio ME, a questionar os efeitos da cotização; o Relatório Benchmark de Avaliação de Desempenho que nos informa que Portugal é o único país, de um conjunto de países importantes da União Europeia, que tem um sistema desses – onde não é feita a distinção entre o mérito pelo mérito e uma tomada de decisão por razões políticas e económicas, reduzindo a avaliação e a progressão da carreira docente a um acto meramente administrativo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Modelo de avaliação do governo outra vez desacreditado


O relatório "Benchmark (Padrões) de Avaliação de Desempenho", datado de 2009, foi pedido à consultora Deloitte pelo Ministério da Educação, no âmbito do processo de implementação do Modelo de Avaliação de Desempenho dos Educadores e Professores. Nas suas conclusões é curioso que têm a necessidade de frisar que "não deve ser entendido como uma avaliação ao modelo de avaliação dos docentes do ensino público", uma vez que não foi assumida uma "posição crítica", mas antes uma "análise factual e objectiva" de comparação. Porquê jogar tão à defesa? Percebe-se, é que há duas conclusões objectivas muito interessantes:

- Dos cinco países analisados, o modelo português de avaliação dos professores é o único que prevê quotas para as melhores classificações.

- Portugal é o único país em que predomina claramente a esoclha por um modelo de avaliação individual. Nos outros países, predominam os processos centrados na avaliação das escolas. Ou seja, por cá persegue-se cada professor, por lá valoriza-se o trabalho em equipa.

Estas conclusões foram extraídas
daqui e daqui

O debate continua em todo o país









Promovido pelo Movimento Escola Pública (MEP) realizou-se em Barcelos, no passado sábado dia 20, um debate sobre igualdade e emancipação da escola pública. Esta sessão que decorreu no polivalente de uma escola pública – Secundária Alcaides de Faria, contou com a participação de mais de uma centena de pessoas e teve como oradoras: Cecília Honório (Co-fundadora do MEP), Ana Drago (deputada do BE na AR) e Júlia Vale (Dirigente do SPN e Secretariado da FENPROF).

José Maria Cardoso, em nome da comissão de professores que organizou este evento, deu inicio à sessão com a apresentação de um filme sobre a Manifestação dos Professores de 8 de Novembro, realizado pelo colega João Lemos da ESAF, que fez questão de participar nesta manifestação e de deixar este seu tributo como legado para a continuação da luta profissional, dado que se aposentou passados quinze dias da data da manifestação. A apresentação do filme serviu como um reconhecimento e agradecimento à sua digna postura.

Da exposição reflexiva apresentada pelas oradoras destaca-se a veemente critica às políticas governamentais para a educação que têm sido praticadas no nosso país, muito especialmente a grande “machadada” aos princípios e valores da escola pública que o actual ministério tem infligido pondo em causa a democraticidade do sistema de ensino.

Cecília Honório começou por dizer que “a ministra veio pôr pó de arroz no ensejo e fúria reformista. O seu sistema de avaliação docente, que defendeu rasgando a camisola, fica adiado e reduzido a uma caricatura em nome das eleições”. O MEP defende a igualdade, democracia e dignidade da comunidade escolar, “contra o clima de intimidação e medo” da tutela, e visa “abrir o diálogo entre todos os activismos, incluindo sindicatos e partidos”.

Júlia Vale centrou a sua intervenção na luta sindical que tem sido travada em nome dos professores mas também em nome da escola pública inclusiva assim como de todo o mundo laboral dizendo que “esta luta é a de todos os trabalhadores independentemente de quem ganhar o governo, o sistema de avaliação e a carreira docente terão de mudar”.

Por sua vez, Ana Drago afirmou que “ o governo PS quis remediar o atraso educativo face à UE mais rápido e baratinho. Quer-se que a escola eduque para todas as competências sem lhe dar meios”. A deputada do BE referiu que para além da revogação do ECD também se deve exigir o fim do novo modelo de gestão das escolas que como já é do conhecimento público está a levar á partidarização. “ O partido que estiver na Câmara Municipal vai querer ter uma palavra a dizer”.

Seguiu-se um debate bastante participado com um conjunto de intervenções da plateia que abordaram temáticas relacionadas com o processo de luta dos professores e do papel dos sindicatos em todo este processo, entendível que assim fosse, dado que a maior parte dos presentes eram professores, mas também foram discutidas questões relacionadas com o conceito de escola pública.

Sem qualquer réstia de dúvida, comprovada pelas auscultações de pós-debate, esta inédita iniciativa em Barcelos foi um êxito, tanto em termos de participação, numa noite em que a elevada temperatura convidava a outras vontades, quanto em termos de discussão contribuindo decisivamente para o acumular de consciências de que a educação tem de ser encarada como um direito e um bem social e não como um produto comercial.

A educação tem de ser pensada como ferramenta com alto potencial de redistribuição, de correcção de assimetrias, de igualdade de oportunidades, no fundo do exercício da democracia. Por isso o ensino público tem de ser prioridade de qualquer governo democrático porque só ele é garante destes desígnios.

Texto de José Maria Cardoso

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Precisam de prova de recuperação?


José Sócrates assumiu finalmente que errou. Na Educação, lá concedeu que também errou. A avaliação dos professores foi demasiado exigente e burocrática, embora tivessem corrigido o erro com a adopção sucessiva dos simplex 1 e 2, disse.

Na Educação estiveram em causa muitos votos. Uma análise minimamente séria do resultado das eleições do passado 7 de Junho não podia deixar de assinalar tal facto. José Sócrates compreendeu que muita gente deixou de votar nele por causa dos ataques que desferiu à Educação e, em particular, aos professores. Acontece que ao assinalar, em assombroso acesso de humildade, que errou, tornou a insultar os professores. Não é verdade que a avaliação tivesse pecado por ser exigente. Ao contrário, de exigente não tem nada. Tem mais de verdadeira farsa de mau teatro do que de verdadeira avaliação. E foi isto que enfureceu os professores. Não o reconhecer e atirar as culpas (novamente) para os professores, que, supostamente, se dariam mal com a exigência é novamente insultar os professores. Mais valia ter ficado calado!

Ao invés de um processo negocial sério com os sindicatos, como se tinha comprometido, a ministra pede opinião sobre o que fazer à Comissão Científica da Avaliação. Está hesitante, percebe-se. Mais simplex? Alargar os períodos em avaliação? Afinal o relatório que recebeu da referida comissão atreveu-se a ser crítico. Até eles!

Definitivamente ainda não perceberam que em matéria de avaliação os avaliados foram eles, ministra e primeiro-ministro, e a avaliação foi extremamente negativa. Precisam de prova de recuperação? Tenham bom senso e acabem com a farsa, pode ser que possam ainda aligeirar a péssima impressão que deixaram ao povo português.

Manuel Grilo, Editorial do Escola.informação, no site do SPGL

A pressa da propaganda dá nisto


Pais de Viseu negam que atraso na entrega de Magalhães se deva a erros nas inscrições

A Federação Regional das Associações de Pais (FRAP) de Viseu acusa o Ministério da Educação de ter falhado na distribuição dos computadores Magalhães, rejeitando que estes não tenham sido entregues por incorrecção nos dados de inscrição.

Vê aqui a notícia

Uma escola que seja nossa


(...) Mas se o Estado interfere demais, não queremos menos Estado, queremos é que se organize de forma diferente. Sublinho que é radicalmente diferente lutar pelo cheque ensino e pela privatização do sistema ou por escolas públicas autónomas, com um orçamento próprio, inseridas nas suas comunidades, aptas a traçar um projecto que seja realmente seu, desde o currículo até à avaliação de professores. Escolas que por serem "públicas" assumirão a função de serem para todos, não vedando o acesso em função do estatuto socioeconómico, etnia, nacionalidade ou género.

Estive há poucos dias com professores oriundos de uma dessas escolas, que a coberto de um programa específico, iniciou um caminho mais autónomo. Queriam, no seu programa de formação, inserir uma bolsa de professores voluntários para assistir a aulas e outros que a ela recorriam, dinamizando o processo como formação inter-pares. Achei uma medida difícil, pois nos tempos que correm é difícil desligá-la da avaliação dos professores, mas ainda assim interessante e corajosa.

E lembrei-me como num projecto de investigação-acção em que participei havia disponibilidade de um conjunto de sociólogos para assistir a aulas e, ao contrário do se poderia esperar, foram muitos os professores que abriram as portas. E nenhum deixou de querer saber depois qual tinha sido a opinião dos sociólogos. Foi, aliás, quase sempre uma iniciativa de professores.

Penso que em sistemas de liberdade, as pessoas funcionam de forma diferente, do que quando sentem sobre elas um controlo apertado, um sistema asfixiante. Se as normas gerais, baseadas sobretudo em princípios, forem iguais, as escolas poderão fazer diferente, tanto no que diz respeito ao currículo, como às formas de organização do tempo e do espaço escolar, como à avaliação dos professores.

Acredito que é preciso investir na qualidade da profissão de professor, conferindo poder de acção aos melhores, e desejando que os melhores não tenham receio de se evidenciar e tomar em mãos o trabalho de construir a escola. E isto constitui também um novo desafio aos sindicatos e associações profissionais. É talvez bem possível que o centro das decisões não esteja apenas no Ministério da Educação como se ele fosse um patrão e consequentemente nele residissem todos os defeitos. (...)

Excerto do artigo de Carla Cibele, publicado em Escola.info

terça-feira, 23 de junho de 2009

Cacifos precisam-se...


"Os alunos levam às costas cerca de cinco quilos em livros e material escolar. Quase dois terços queixam-se de dores decorrentes da sobrecarga nas mochilas, revela um estudo apresentado na Universidade do Minho. A generalização dos cacifos nas escolas é uma das soluções apresentadas.

O trabalho de Regina Barros demonstrou que a maioria dos alunos analisados apresentava alterações posturais relacionadas com o excesso de peso nas mochilas. As alterações à coluna afectavam 69 por cento dos alunos, a protusão dos ombros (ombros para a frente) 59 por cento e a anteriorização do pescoço, 49 por cento. O estudo envolveu 136 alunos de vários ciclos de ensino de escolas públicas e privadas. A autora verificou que, tendencialmente, os alunos dos primeiros anos transportam mais do que dez por cento do seu peso nas mochilas, ao contrário do que recomendam especialistas. A tendência só se inverte nos 9º e 12º anos.

O peso médio dos sacos escolares apresentava valores entre os 4,1 quilos e os 5,4 quilos. Cerca de 77 por cento dos estudantes preferem usar mochila, 12 por cento optam pelos sacos com uma alça e seis por cento pelo carrinho. Menos de metade dos que usam mochilas colocam as duas alças nos ombros.

Uma das soluções apresentadas para evitar os problemas de saúde é a instalação de cacifos. "A maioria das escolas não tem condições para que os materiais permaneçam na instituição de ensino, pois não existem armários individuais ou então são em número insuficiente", explicou a investigadora.

Regina Barros apelou a professores e a editoras para que exijam manuais mais leves. "É imperativa a cooperação de todos os envolvidos para ultrapassar os problemas do uso incorrecto e peso inapropriado do saco escolar", considerou. " (
notícia do Correio da Manhã)

Comentário:

É de facto daquelas coisas mundanas que se tornam problemas bem grandes e visíveis, que todos teimam em não resolver. É mais do que óbvio que deviam existir cacifos nas escolas para todos os alunos. Custa dinheiro, mas é dinheiro bem gasto. O facto de existirem “Trabalhos Para Casa”, que obrigariam os alunos a transportar os manuais, não pode ser vir de desculpa. Afinal, serão assim tão úteis os TPCs? Sobre essa temática, releia
este post.

Lavagem


Desenho de Antero Valério

Bloco quer "ponto final" na avaliação dos professores


O Governo deve "pôr um ponto final" no actual sistema de avaliação de professores, defende o Bloco de Esquerda (BE). Em conferência de imprensa, em Lisboa, Ana Drago, deputada do BE, considerou hoje que seria "um erro" insistir, nos próximos anos lectivos, no mesmo modelo de avaliação de professores já que este "não responde a nenhum dos problemas centrais do sistema educativo".

A posição do BE surge dias depois do Ministério da Educação ter pedido ao Conselho Científico para a Avaliação de Professores um parecer sobre o tema. A tutela quer saber se o conselho considera que no próximo ano deve ser adoptado o modelo de avaliação dos docentes aprovado em 2008, com as alterações necessárias, ou se deve ser mantido o regime simplificado aplicado em 2008/2009.

Em alternativa, Ana Drago defende que o Governo ponha "um ponto final" no modelo para que seja possível "regressar à estaca zero" e iniciar uma "discussão pública alargada".

O BE defende, de resto, que seja criado um "conselho representativo dos actores" do sistema de avaliação para "discutir e construir um outro modelo" que avalie "as escolas no seu contexto".
"Não podemos avaliar da mesma forma professores que estão numa escola do centro da cidade, [que dão aulas a] filhos de pais com profissões liberais e formação académica elevada e uma escola que está num contexto mais desfavorecido como acontece na periferia de Lisboa", exemplificou.

A deputada considerou ainda urgente responder de forma mais acelerada ao problema do abandono escolar, defendendo a criação de "equipas multidisciplinares nas escolas".

(notícia do jornal público)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Sala cheia em Barcelos para debater a Escola Pública


Na Escola Secundária Alcaides de Faria, em Barcelos, mais de cem pessoas participaram no debate sobre igualdade e emancipação na escola, promovido pelo Movimento Escola Pública. Ana Drago, Cecília Honório e Júlia Vale abriram a conversa. Em breve, divulgaremos algumas conclusões e mais fotografias.

O rumo com pó de arroz


O rumo, a direcção, o ângulo da quilha do governo, não vai mudar até às legislativas. Sócrates é outro timoneiro de convicções, e naufrágios. Mas os berloques retóricos das últimas entrevistas e os retoques de pó de arroz nos ministros que mais água meteram são evidentes.

E poderá a "humildade democrática" abafar a palavra que mais consenso gerou o absolutismo da maioria, a arrogância? Se a arrogância não tivesse números e nomes, os do desemprego, da precariedade, do medo que se instalou nas relações laborais, das clientelas, dos apetites privatistas e gerencialistas dos serviços públicos, seria tudo mais fácil.

Humilde, porventura, Sócrates diz que errou na avaliação demasiado burocrática dos professores. Maria de Lurdes Rodrigues reaparece no palco. O governo abre-se para a manutenção do simplex dos simplex. Razão para perguntar: deixaram de querer ser desesperadamente modernos à conta da avaliação dos professores ou aceitam que, farsa por farsa, o melhor é deixar andar?

Estas são questões menores, e por o serem é que estes políticos são tão pouco credíveis, e tanto menos credíveis quanto mais maquilham as absolutas convicções de ontem. As razões de Sócrates são muitas: precisa dos "votozinhos" para as próximas eleições, precisa de segurar Maria de Lurdes Rodrigues, se o futuro o permitir, e precisa de fazer da avaliação de desempenho o único fundamento da indignação de todos/as os/as professores/as, convencido que em política a memória é curta.

E enquanto o governo assobiar com o simplexíssimo não precisa de levar a sério o que até o Conselho Científico para a Avaliação dos Professores conseguiu concluir: que as escolas vivem climas de intimidação e de medo, que as relações entre pares se deterioraram, que nada disto fez bem à escola pública.

E enquanto armadilharem com pó de arroz o que fizeram à escola pública, e àqueles e aquelas que são o seu rosto, podem branquear as questões de fundo: a autocracia da nova gestão, a divisão arbitrária e incompetente entre professores de primeira e de segunda, a precariedade humilhante de milhares de profissionais, etc. Dá-lhes jeito, portanto, mas nem à escola pública nem aos alunos/as, nem às famílias, nem aos profissionais de educação "deu jeito" a política educativa deste governo. E porque nada disto se pode esquecer, estará tudo em cima da mesa no arranque do próximo ano lectivo.

Artigo de Cecília Honório, no Esquerda.net

domingo, 21 de junho de 2009

Parece que o ME ainda não compreendeu...



Professores portugueses perdem muito tempo a manter disciplina na aula - Bárbara Wong

Os professores portugueses perdem muito tempo na sala de aula até conseguir o ambiente de aprendizagem ideal, confessam num inquérito feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), realizado no ano lectivo de 2007/2008. O estudo Criar Ambientes Eficazes de Ensino e Aprendizagem feito em 23 países através de questionários a docentes do 3.º ciclo do ensino básico foi divulgado ontem, no México.

Segundo o relatório, três em cada cinco escolas dizem que o mau comportamento dos alunos perturba o bom funcionamento da aula. Portugal não é excepção e os docentes confessam que 25 por cento do tempo lectivo é para manter a disciplina ou é gasto em questões administrativas. É o quinto valor mais baixo entre os países analisados, no entanto, a média geral é de 20 por cento. Este é um problema com que os professores, todos, se debatem.

Em Portugal, os professores são cumpridores, não chegam atrasados, faltam pouco e têm boa preparação pedagógica, declaram os 200 conselhos executivos que responderam. O problema são os alunos, dizem os professores. Quatro em cada dez admite que as interrupções dos alunos quebram o ritmo da aula.

É o comportamento dos estudantes que prejudica a aprendizagem, sublinham. Para 69,1 por cento dos professores o problema são os distúrbios na sala de aula (a média internacional é de 60,2 por cento); o absentismo e o chegar atrasado corresponde a 50,8 e a 40,8 por cento das respostas. Os profissionais preocupam-se ainda com o facto de os alunos dizerem asneiras (42,8 por cento) ou intimidarem os colegas (28,4 por cento). Os roubos (23,3), vandalismo (20,5) e agressões (19,2) também fazem parte das suas preocupações.

Faltam incentivos

A nível internacional, três em cada quatro professores sente que não têm incentivos suficientes para melhorar a qualidade do seu ensino. Os portugueses, ao lado dos espanhóis e dos húngaros, estão entre os que admitem que não conseguem ser bem sucedidos com os alunos com maiores dificuldades de aprendizagem ou pouco motivados. Ao passo que nove em cada dez italianos, noruegueses ou eslovacos declaram que, com persistência, conseguem o sucesso dos alunos.

Um ambiente positivo está associado a mais aquisições e a mais aprendizagem, reconhecem os docentes. "O êxito das políticas de educação depende fortemente da existência de professores de elevada qualidade", defende Angel Gurría, secretário-geral da OCDE. Por isso, o relatório recomenda que se aposte na formação contínua; aliás, os inquiridos admitem que quanto mais formação têm, melhor sabem gerir os problemas na aula e na escola. Nove em cada dez professores, a nível internacional, apostam na sua formação, nem que seja um dia, por ano lectivo. Contudo, a grande maioria, professores portugueses incluídos, não se sente reconhecido. Aliás, os nacionais fazem parte dos poucos profissionais que declaram que nos últimos cinco anos, anteriores ao inquérito, não foram avaliados externamente.

A OCDE defende que "a principal lição política" a retirar deste estudo é que os ministérios têm que prever incentivos "mais eficazes" para os professores, recompensando-os e reconhecendo o seu trabalho. Além disso, devem olhar menos para o controlo dos recursos e conteúdos educativos e mais para os resultados da aprendizagem. Em comunicado, o Ministério da Educação congratula-se com a avaliação do desempenho dos professores e a gestão escolar e considera que as recomendações da OCDE confirmam "a centralidade e a premência das reformas introduzidas".
Fonte: Público


Esta equipa ministerial foi uma anedota completa... e ainda não pararam. Tudo o que fizeram nestes 4 anos contraria precisamente as recomendações da OCDE... mais palavras para que? Só eles ainda não perceberam ou não quiseram perceber.


Retirou a autoridade aos professores, foi fonte de grandes perturbações e desmotivação. Denegriu a sua imagem, tendo por base factos que não correspondiam sequer à verdade, entre muitas outras coisas negativas. Todas elas nos afastaram do caminho de um bom ensino público e...destas recomendações.


Preservar os escombros


A Ministra não tem força para defender o seu modelo de avaliação. Admite manter a versão simplificada até 2011. O Conselho Científico para a Avaliação admite inúmeras fragilidades no modelo do governo e na sua implementação, apesar de o continuar a defender. O desastre é tão grande que até um órgão domesticado pelo governo não conseguiu deixar escapar cá para fora tantos erros graves.

Na verdade, provavelmente a casa já veio mesmo abaixo e do que se trata agora é apenas de manter os escombros. O governo prefere manter a farsa – uma avaliação baseada na assiduidade e totalmente desligada da pedagogia e da formação – do que esquecer o seu modelo e partir para a construção dialogada de algo novo, sério e capaz de servir a escola pública. Disso, há muito que desistiu.