segunda-feira, 13 de julho de 2009

A ilusão da ciência ou a exactidão dos sonhos entre exames e concursos


Todos os anos, mais ou menos por esta altura, somos confrontados com a dificuldade de compreender a exacta dimensão do significado dos resultados dos exames finais e todos os anos o governo nos brinda com o oximoro que mais convém para servir a agenda do momento.

Os resultados dos exames servem para tudo. Há um ano os resultados de matemática tinham subido em média. Dizia o governo que isso era o resultado da eficácia do plano nacional da matemática, da dedicação dos professores e da competência do governo. Este ano os resultados desceram e o inefável secretário de estado Valter Lemos lestamente veio anunciar que a responsabilidade era dos comentadores políticos, da Sociedade Portuguesa de Matemática e dos partidos.

O jogo de ilusões que o governo procura fazer passar é indescritível. Descarta responsabilidades quando convém, distribui culpas com a mesma leveza de quem distribui pétalas de flores, tenta adoçar a boca dos professores num dia e agride as suas associações profissionais no dia seguinte, ao sabor do vento e da conveniência. A exactidão do erro deste ministério é a única constante com que podemos contar.

Todos os anos, também mais ou menos por esta altura somos confrontados com os resultados da colocação de professores. Há três anos que não se realizava qualquer concurso para ingresso nos quadros. A expectativa dos 111 mil candidatos era enorme. Para muitos tratava-se de finalmente obter um vínculo profissional mais estável ao fim de muitos anos de serviço e para muitos outros tratava-se de conseguir obter colocação numa escola mais perto do seu local de residência que lhes permitisse recuperar o direito à sua vida privada.

A importância do resultado para a vida destas pessoas é gigante. Não é portanto compatível com a insignificância, a pequenez do pensamento de quem argumenta com o número bruto de professores colocados. A ilusão da ciência vem deste número: 30 mil professores colocados.

Mas é preciso dizer que estes são menos de um terço dos candidatos. E é preciso dizer mais. É preciso dizer com clareza quantos foram colocados no quadro pela primeira vez: apenas 417. Isto é, apenas 0,3 por cento dos candidatos. Mas é preciso ir mais longe e constatar que não entrou no quadro nenhum professor do ensino pré-escolar, nem do 1.º ciclo nem nenhum professor de matemática ou de português do 2.º ciclo.

Não é desta forma que se resolve o défice de oportunidade da aprendizagem. Resolver os problemas de uma escola desigual que, ano após ano reproduz desigualdade precisa de uma orientação coerente que invista na oferta educativa precoce e melhore a vinculação dos docentes aos projectos de educação dos locais. Que os comprometa e reconheça. Esse efeito não se obtém com uma relação precária. Contra a exactidão dos sonhos dos professores que esperam ver o seu trabalho reconhecido, o seu percurso profissional estabilizado, o governo só tem a manipulação da ilusão dos números para oferecer e o adiamento das expectativas. Em nome da ilusão de uma ciência falsificada que toma a parte pelo todo e promove os resultados de exame como o indicador da evolução da educação, o governo vai surfando a onda do momento e só contribui para agravar o equívoco.

Texto de Alda Macedo, em escola.info

Professores desterrados


Uma colega, PQZP, não colocada no concurso de professores, questionava a sua nova situação profissional. Acabando as vagas de QZP’s, para que serve a designação? Não sendo Professora Contratada também não poderia ser considerada uma Professora do Quadro de Escola. Eu sei que esta controvérsia irá ser retomada quando for reactivado o diploma dos vínculos profissionais e, provavelmente, aí seremos mais, muitos mais, a perceber o que significa ser um professor desterrado.

Post de Miguel Pinto, em OutrÒÓlhar

domingo, 12 de julho de 2009

Precariado docente x 3


A precarização do corpo docente tem sido um dos consensos mais perenes da educação em Portugal. O bloco central que tem governado a educação insiste em manter milhares de professores/as em situação de instabilidade total. Mesmo quando outros/as tantos/as se reformaram, mesmo quando o número de alunos/as em alguns ciclos de ensino aumentou, o número de vagas continua a ditar a precariedade ou o desemprego e a fazer com que muitos/as vivam com a casa às costas.

A precariedade docente não é uma sina é uma política. Só que, sendo a política de todos os partidos do arco do poder, parecerá sina enquanto a actual situação política se mantiver.

1- Os/as eternos/as contratados/as

Este problema é crónico e já quase não é notícia. A opinião pública recebe já dessensibilizada a informação desta semana de que 99% dos/as candidatos/as à vinculação ficaram de fora, depois de já ter recebido a notícia da corrida às reformas dos/as professores/as e educadores/as. Ao recebê-la assim, talvez não tenha ficado claro que o seu prazo de validade, a manter-se esta política educativa, é de quatro anos. Ou seja, do ponto de vista do governo o facto dos concursos para entrada nos quadros se realizarem de quatro em quatro anos é uma estabilização, do ponto de vista dos/as contratados/as significa, no mínimo, mais quatro anos de uma angústia precária vivida com a certeza de que as escolas precisam permanentemente de mais professores/as.

2- AEC, precários/as a tempo inteiro

Mas se parte do problema se arrasta há muitos anos, este governo inventou também novas situações de precariedade. A "escola a tempo inteiro" correspondeu à formação de um novo corpo de precários a tempo inteiro: os/as professores/as e monitores/as das Actividades de Enriquecimento Curricular.

E se o grande argumento para manter os/as contratados/as numa situação de precariedade permanente é, no primeiro caso, a poupança orçamental, esta segunda condição precária de muitos/as professores/as parece ser contra-intuitiva do ponto de vista desta argumentação. Se o objectivo da precariedade é poupar, como se justifica que a invenção das AEC seja um mau negócio a tempo inteiro em que o Estado paga às autarquias para pagarem a empresas privadas (sem grande supervisão da sua qualidade e sem que se conheçam muitos concursos públicos para este efeito) que por sua vez pagarão, a recibos verdes, tarde e a más horas aos/às professores/as?

3- Novas oportunidades/novas precariedades

O programa das "Novas Oportunidades" constituiu, para além de uma obsessão de certificar à pressa e com uma finalidade meramente estatística, uma nova oportunidade de precarização do sector docente. Sendo também uma nova oportunidade de negócio, dados os apoios que entram nas entidades formadoras, as "novas oportunidades" são também elas um programa que se percebe precário e de vistas curtas que apenas criará empregos precários e em condições difíceis permitindo mais uma vez que os grandes ganhadores sejam os intermediários. O que menos interessa é a qualidade do ensino ministrado nas "novas oportunidades", apenas que seja de certificação rápida para que se possa agradar a quem procura um grau mais elevado de formação e se possam mostrar um acréscimo de habilitações para inglês ver.

Artigo de Carlos Carujo, publicado em Esquerda.net

Protesto contra a precariedade docente

Na próxima quinta-feira, frente ao Ministério da Educação, às 16h, a FENPROF organiza um protesto contra as injustiças do concurso de professores/as, contra a precariedade que continua a ser a norma de muitos/as docentes e pela realização de um novo concurso de vinculação para o próximo ano. Há informação sobre inscrições em autocarros nos respectivos sites dos isndicatos da Fenprof.

É fundamental passar palavra e juntar todos/as os/as que possam ir para demonstrar de novo a nossa força!

Vê aqui mais informação

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Um estudo para medir o impacto da propaganda


A equipa da Universidade Católica encarregue da avaliação externa da Iniciativa Novas Oportunidades (INO) não está a aferir qual a qualidade das aprendizagens, assumiu ontem Roberto Carneiro, líder da equipa. "O nosso objectivo não é avaliar o rigor e a qualidade da INO. Avaliámos foi a percepção das pessoas sobre a INO", disse o ex-ministro da Educação na apresentação das primeiras conclusões da avaliação efectuada.

Ora aqui está uma evolução criativa deste governo. Já não basta fazer propaganda, agora fazem-se estudos sobre a eficácia dessa propaganda junto das pessoas. Na verdade, para saber se vale a pena insistir na mesma cosmética ou se mais vale mudar o tom das cores. Quanto à substância do programa, recusa discuti-la ou avaliá-la. Lamentável.

Quando vai haver condições para trabalhar na escola?


Se só por si os quadros interactivos ou separadamente os projectores multimédia que estão a invadir as escolas, reforçado com o objectivo de um computador por sala de aula, e ainda o portátil “Magalhães” que ocupou na integra o Boletim dos Professores N.º 16, como instrumento de propaganda do Ministério da Educação, fossem factor de estabilidade e de condições fundamentais para trabalhar na escola, o sucesso estaria garantido, tal é o investimento tecnológico do governo, que procura nesta fase final da legislatura, impressionar as comunidades escolares, com extraordinárias remessas de material informático que chega ás escolas a um ritmo alucinante. Ao ponto de em alguns casos, os novos equipamentos contribuírem mesmo para fazer realçar o desfasamento entre a falta de condições das instalações e a tecnologia colocada ao dispor dos alunos e professores. Mas não, não é suficiente, nem mesmo decisivo e o tempo se encarregará de demonstrar, pena será, caso se faça balanço (já que não se vem fazendo ás sucessivas falhadas politicas da educação), que se esteja a hipotecar o futuro da actual geração de estudantes.

Pois não bastam todos estes novos meios ao dispor do vazio de perspectivas, a componente humana, a necessidade de valorização das pessoas era bem mais necessária e estimulante, até para as aprendizagens e os consequentes resultados sem artificialismos para as estatísticas. Bem pelo contrário, o Ministério da Educação prefere profissionais sem motivação, sem estímulo, sem perspectivas, sem estabilidade. Vai daí, como temos assistido, torna este período de férias, no caso dos docentes, um autêntico pesadelo, um dia a dia de ansiedade e tantas vezes de desilusão e angústia.

Afinal os resultados dos concursos de professores confirmam ser os piores de sempre. A manipulação de números para fazer crer o que não é verdade, volta a repetir-se nitidamente com o intuito de enganar a opinião pública, tal como já anteriormente aconteceu com a “novela” da avaliação do desempenho dos docentes, cuja continuação dos próximos capítulos está pendente deste ano eleitoral.

A precariedade laboral que está a agravar-se na escola pública, é tanto mais evidente, quando, dos mais de 100 mil participantes no concurso, 50 mil são professores precários, muitos há vários anos e outros que concorrem pela primeira vez, dos quais apenas quatro centenas conseguiu um lugar no Quadro.

O Ministério da Educação na sua diferente interpretação da realidade, anunciou que, dos mais de 100 mil participantes no concurso de professores, válido para quatro anos, foram colocados 30 mil professores.

Mas como as actuais gerações de docentes ainda vão resistindo a deixarem de pensar e ter opinião, só podem concluir, que analisando estes 30 mil, percebe-se que cerca de 18 mil são professores que apenas pediram transferência de Quadro de Escola, perto de 12 mil são docentes que estavam num Quadro de Zona Pedagógica e entraram nos Quadros de Agrupamento e apenas 417 dos candidatos precários obtiveram colocação nos quadros.

Não conseguindo disfarçar a demagogia dos números e o desrespeito cínico pelos professores, cujas expectativas para este ano eram compreensivelmente maiores devido aos milhares de professores que se aposentaram. Perante mais esta afronta, que tranquilidade, que estabilidade para a escola pública e seus profissionais, que respeito pelas comunidades escolares. Este é o desafio que temos na véspera de mais um ano lectivo, que não parece trazer grandes mensagens de paz.

José Lopes (Ovar)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Divisão na carreira é "veneno" para a educação


A divisão da carreira de professor é vista como "um veneno para o sistema educativo". São críticas lançadas no Fórum "Educação", promovido pelo Diário Económico e que reuniu diversos especialistas. O sociólogo da educação, Licínio Lima, da Universidade do Minho e com trabalhos na área das organizações educativas, identificou erros no sistema de escolha dos titulares. A jornalista Andreia Brito escutou estas visões do sistema educativo. Ouve aqui

O curto circuito do Poder

O Director Regional de Educação do Alentejo, José Lopes Verdasca, é o candidato do PS à Câmara Municipal do Redondo (Évora), nas eleições autárquicas deste ano, revelou hoje fonte partidária. Militante do PS, José Lopes Verdasca, que assumiu a Direcção Regional de Educação do Alentejo em Dezembro de 2005, é licenciado em Economia, com mestrado e doutoramento na área da administração escolar (fonte Lusa)

Uma petição que só agradou à Direita


Previsivelmente, a petição que propõe punições para os pais de alunos absentistas , só mereceu o apoio dos partidos da Direita (PSD e CDS/PP). Vê a notícia da edição impressa do Diário de Notícias.

Lê também o post “Uma petição injusta

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Uma petição injusta


Um professor avançou com uma petição “pela responsabilização efectiva das famílias nos casos de absentismo, abandono e indisciplina escolar” e rapidamente ela obteve muitas assinaturas (17 mil) e é discutida esta quarta-feira no parlamento.

Percebe-se o impacto e a adesão que teve. Quando há problemas é sempre mais fácil encontrar um bode expiatório, com cabeça tronco e membros. Se há alunos indisciplinados ou absentistas então castigue-se os pais, indiscriminadamente. É a idea da solução fácil, imediata, como se o problema fosse simples e não existissem causas mais complexas a montante que necessitam de ser combatidas.

A indignação com esta petição atinge o seu auge quando lemos a única proposta concreta que ela carrega: “medidas sancionatórias às famílias negligentes como multas, retirada de prestações sociais e, no limite, efeitos sobre o exercício das responsabilidades parentais”.

Pois, as multas e a retirada de prestações sociais punem precisamente quem mais sofre e quem tem menos possibilidades de acompanhar os seus filhos. Não prejudicam a família rica e negligente. Castigam sim a família em que muitas vezes ambos os pais têm vários trabalhos precários, mal dormem e esforçam-se ao máximo por pagar os materiais escolares dos filhos. Prejudicam as famílias que já têm privações e que por muito boa vontade que tenham, não têm as mesmas possibilidades de acompanhar os seus filhos. São medidas injustas e que só pioram o problema.

Num mundo e num país em que a precariedade aumenta, em que as dificuldades são cada vez maiores para cada vez mais famílias, faz sentido apontar baterias contra os pais que querem acompanhar os seus filhos mas não podem? Faz sentido fazer julgamentos morais sobre a vontade de cada família quando não se conhecem os contextos?

É por isso que esta petição acerta ao lado. Para combater o insucesso, o abandono e a indisciplina, as medidas certas são outras e são de dois tipos:

1) Apoios sociais dignos para as famílias mais necessitadas, combate ao desemprego e à precariedade com medidas concretas, e redução do horário de trabalho.

2) Potenciar as escolas de meios humanos e materiais (não sobrecarregando sobre os mesmos) que lhe permitam um combate sério ao abandono e insucesso escolar, com turmas mais pequenas, psicólogos, assistentes sociais e tutorias.

Miguel Reis, Movimento Escola Pública

terça-feira, 7 de julho de 2009

O concurso precário e o barato que sai caro


- 99% dos docentes que concorreram para ingressar em quadro não o conseguiram (apenas entraram 417 dos cerca de 50.000 candidatos que apresentaram 65.464 candidaturas - menos de 1%);

- 11.836 docentes que já pertencem aos quadros (40,9% do total de docentes dos QZP) não obtiveram colocação no novo quadro criado (Quadro de Agrupamento).


São decepcionantes os resultados deste concurso, principalmente quando nos concursos anuais eram colocados nos quadros em média cerca de três mil professores, e, pior ainda, quando este ano assistimos a uma vaga tão grande de aposentações.

A escola que temos é em grande parte assegurada por profissionais precários e na corda bamba, muitos deles alternando essa situação com o desemprego. Isto num país em que muitas escolas têm turmas demasiado grandes, onde o abandono e insucesso escolares são dos maiores da Europa, onde faltam professores de apoio, onde milhares de alunos e famílias recorrem às explicações privadas porque a escola não oferece recursos humanos suficientes.

Mas, para este governo como para os anteriores, as escolas não precisam de mais professores. Só que o barato, neste caso sai muito caro.

Nenhum professor ficará desempregado?

O ME divulga na imprensa de hoje “projecções” segundo as quais cerca de quarenta mil candidatos/as aos concursos de professores/as não serão colocados. Mas, adianta logo Valter Lemos, de certeza que com o objectivo de tranquilizar, “nenhum dos que ficarão de fora teve ligação às escolas públicas nos últimos dois anos, disse ao Público o secretário de Estado da Educação (…). Ou nunca leccionaram, ou estão no ensino particular ou nas actividades de enriquecimento curricular e candidataram-se agora ao ensino público. A maioria tem um emprego.”

Não se sabe a partir de que dados estas projecções foram feitas, uma vez que as Escolas ainda não declararam vagas para as fases seguintes do concurso. Não se sabe quais são as fontes sobre o tipo de candidatos que ficarão de fora. O que se sabe com certeza é que este discurso é o mesmo de sempre: quantas vezes não ouvimos que os desempregados não são professores são “candidatos a professores”?

A lenga-lenga é mais que conhecida. A acreditar nos sucessivos Ministérios da Educação nenhum/a professor/a teria ficado desempregado/a nos últimos anos. São sempre apenas os/as “candidatos/as a professores” que não conseguem colocação. E a acreditar neste discurso ser professor deverá ser a actividade mais atractiva do país, com várias pessoas com outras profissões a querer entrar para ela. Ou então com muita gente alheia à educação com um estranho fetiche por incluir o seu nome na lista de candidatos a professor. Talvez se comprove mesmo um dia a estranha mania dos marcianos concorrerem a professores… Uma experiência única na vida de qualquer um.

O discurso é mentiroso e insultuoso. Mentiroso porque milhares de professores foram sendo obrigados a deixar a profissão devido às medidas que colocam as contas de mercearia acima da qualidade da educação. Insultuoso porque insiste em desqualificar todos/as os/as que concorrem mas principalmente aqueles que dedicaram vários anos da sua vida a esta profissão e que segundo os responsáveis ministeriais nem merecem ser qualificados/as como professores/as e educadores/as. E quem infelizmente ficar desempregado/a no próximo concurso deverá ir lembrar a Valter Lemos a sua mentira.

Carlos Carujo, São Brás de Alportel

Porta fechada

Ontem fechou-se outra vez por quatro anos a porta da vinculação para milhares de professores/as e educadores/as. Este facto deve fazer-nos lembrar que os sucessivos governos apostam tanto em ter professores e educadores precários quanto em precarizar e humilhar os professores/as que já estão no quadro. A precarização da actividade docente é um dos consensos mais perenes dos poderes que têm governado a educação.

No discurso oficial, o facto dos concursos se realizarem de quatro em quatro anos corresponde a uma “estabilização” do corpo docente. Na realidade significa que, mesmo que entretanto exista aquilo que o Ministério reconhece como “necessidades permanentes do sistema”, nenhum professor/a ou educador/a entrará nos seus quadros com todas as consequências que isso tem na vida das pessoas. Na realidade deixa os quadros de zona numa espécie de limbo em que este pertencem a um quadro que já não existe, em que são excedentários ou supernumerários apesar de serem necessários às escolas.

E, daqui a quatro anos, as portas que voltarem a abrir talvez não sejam as mesmas. Tudo se prepara para que a transparência de listas nacionais deixe de existir. Tudo se prepara para que directores plenipotenciários ou executivos municipais desconhecedores da realidade das escolas sejam os novos actores principais da contratação de professores. Tudo se prepara para que os governos seguintes inventem novas formas de precariedade e limitem ainda mais a verdadeira estabilização do corpo. Tudo se prepara a menos que nós nos preparemos antes. E lutemos com todas as forças que tivermos pelo direito à vinculação.

Carlos Carujo, São Brás de Alportel

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Concursos - O Momento Tão Aguardado

O resultado dos concursos de colocação Docente já sairam.

Boa sorte a todos.

Hiperligação aqui

Tanto disparate numa só resposta


Manter a avaliação dos professores, com o modelo transitório aprovado em Janeiro deste ano, foi benéfico para o país e o ensino?

MLR - Foi benéfico, porque permitiu ultrapassar as dificuldades, técnicas e outras, à criação nas escolas de condições para a realização de uma avaliação que permite diferenciar e premiar os melhores.

Vê toda a entrevista a Mário Nogueira e Maria de Lurdes Rodrigues

Bastou dar a primeira resposta para Maria de Lurdes se espalhar ao comprido. Diz que foi benéfico para o país e para o ensino manter esta avaliação de professores, sem “mas” nem “meio mas”. Ou seja, revela todo o seu auto-centramento, toda a sua teimosia alheada do mundo exterior. Como um robôt. E, claro, as dificuldades foram ultrapassadas....em que país vive MLR?

Mas estas três linhas revelam muito mais do que arrogância e alheamento. Mostram bem o pensamento desta equipa ministerial quanto à avaliação: ela deve servir para “diferenciar e premiar os melhores”. Ou seja, para Maria de Lurdes, um sistema de avaliação de professores não serve para melhorar a qualidade pedagógica e científica das aulas, não serve para ajudar os professores com mais dificuldades, não serve para resolver problemas nem para formar, serve tão só para distinguir os melhores, como se o ensino fosse uma competição desportiva onde se atribuem medalhas no final. A isto chama-se tecnocracia neoliberal imbecil.

Finalmente, o último disparate. Há uns dias, a Ministra veio dizer que, se calhar, as quotas para as notas mais elevadas já não farão sentido, digamos que era só para experimentar. Mas nesta curta resposta que agora deu, por que raio decidiu definir o essencial do seu modelo de avaliação por aquilo que diz que vai rejeitar no futuro? É caso pa ra dizer que aquela gente anda muito baralhada....

domingo, 5 de julho de 2009

Escolas rejeitam alunos mais pobres


O Ministério da Educação (ME) procedeu a uma recolha de dados inédita: o apuramento da percentagem de alunos beneficiários da Acção Social Escolar (ASE) por unidade orgânica, contrastando depois os dados com as médias nacionais. Os resultados mostraram alguns fossos abissais. A média no Básico é 44,7% e o ME encontrou casos de escolas com ASE entre 3,43 e 15,95%. A média nacional no Secundário é de 26,5%, mas foram detectados casos de escolas com uma percentagem de alunos com ASE entre 3,50 e 10,64%.

Comentário:

1) Estes dados confirmam, que, infelizmente, há escolas que discriminam e rejeitam alunos de classes sociais mais baixas. O estudo do sociólogo João Sebastião já havia levantado este problema. Há escolas que estão à frente nos rankings porque têm alunos mais favorecidos e outras que ficam com os mais pobres e se afundam nos rankings. Tal como com as turmas de nível, estas práticas, que o Movimento Escola Pública rejeita e combate, são reprodutoras das desigualdades de partida.

2) Há um dado importante relatado na notícia: as escolas com cursos profissionais têm tendência a ter mais beneficiários da Acção Social Escolar, confirmando o que vínhamos dizendo: com as suas políticas, este governo ajuda a criar uma escola para ricos e outra para pobres.

Passa-Palavra


Acabo de saber recentemente (lendo) que um recém-movimento apelidado de Plataforma Resistência Nacional, está a convidar directo ou indirectamente os pais a entregarem uma carta aos órgãos de gestão dos Agrupamentos, dizendo que não autorizam os filhos a frequentar as aulas de educação sexual no próximo ano-lectivo! Pois eu, como pai/ encarregado de educação/ docente; devo dizer que discordo plenamente de tal atitude e não hesito em acrescentar ( para que se saiba) que os jovens são o grupo que mais tem contribuído para as novas infecções de sida ( HIV) e Portugal mantém-se com a 2º maior taxa de gravidez na adolescência de toda a Europa. Eu tenho uma filha no secundário e defendo convictamente que a educação sexual deverá constar nos currículos escolares. E acreditem que isto nada tem de promíscuo ou convida à anarquia! Por isso considero ser necessário implementar a Educação Sexual nos horários como área obrigatória, com profissionais formados e contratados para o efeito e onde se discuta tudo sem medos nem preconceitos. Não deixemos que a ignorância (desconhecimento do conhecido) e o preconceito (conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou razoável) persistam/ prevaleçam. Basta de esconder a cabeça na areia.

José Carlos Jacinto, Movimento Escola Pública

sábado, 4 de julho de 2009

Escola separa alunos "bons" de alunos "maus"


Pais e professores de agrupamento da Damaia denunciam separação de estudantes por classificações. Ministério diz que a medida é possível,mas considera-a contra-indicada a nível pedagógico. A direcção da escola diz que vai apenas juntar aqueles com mais dificuldades em turmas especiais

Professores do agrupamento de escolas dr. Azevedo Neves da Damaia, Amadora, dizem ter recebido ordens para dividir os alunos conforme o resultado: bons, médios e maus. Uma medida que consideram discriminatória. O director do agrupamento, José Biscaia, fala antes em juntar os estudantes menos bons em turmas especiais para reforçar o apoio. O responsável explica que "o objectivo é aumentar o sucesso dos alunos com mais dificuldades", reunindo-os em turmas que têm também bons alunos. Os psicólogos alertam para o risco de se criarem sentimentos de inferioridade nos piores estudantes.

Alguns pais descontentes ponderam mesmo uma manifestação pacífica para hoje, à porta da escola onde se vai realizar o almoço de fim de ano do agrupamento. Ao todo, cerca de 500 alunos do 1º ciclo vão ser afectados pela medida.

As escolas em causa fazem parte dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP). José Biscaia explica ao DN que as turmas que vão acolher os alunos com mais dificuldades tem, durante algumas horas por semana, um professor titular e um de reforço, que os ajuda a perceber o que é dado a Matemática e Português. "Não temos horas, nem dinheiro para ter um professor de reforço em todas as turmas", acrescenta o responsável. Assim, a solução é a criação de turmas que concentram grupos de alunos com mais dificuldades para terem apoio, uma medida conhecida como turmas de nível, e que já é aplicada no 2.º ciclo deste agrupamento há quatro anos.

Mas pais e professores alegam que os alunos vão ser separados segundo as suas capacidades. "Foi pedido aos professores que se reunissem para dividir os alunos em bons, médios e maus", admite ao DN uma professora do agrupamento que preferiu manter o anonimato.

A mãe de um aluno que vai frequentar o segundo ano de escolaridade ficou a conhecer esta medida através da mãe de outra aluna. "A professora disse a essa mãe que ia ficar com a turma dos melhores alunos", refere a encarregada de educação que está contra a medida.

Esta separação por níveis é possível, como indica o Ministério da Educação em resposta ao DN, mas "é, regra geral, pedagogicamente contra-indicada". Também Albino Almeida da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) defende que a constituição de turmas por níveis, ou seja, aulas suplementares para os alunos com mais dificuldades, são mais aconselháveis. "Não conhecendo o caso concreto, acho que vale a pena reavaliar esta medida já que parece não contar com o apoio de todos os pais", alerta o dirigente da Confap.

O próprio responsável pelo pelouro da Educação na Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), António José Ganhão, reconhece que este "é um projecto polémico". O vice-presidente da ANMP acrescenta que pode "criar estigmas nas crianças e leituras não muito positivas por parte das famílias". E compara: "faz lembrar as carteiras dos burros que havia no meu tempo".

O grupo de pais que contesta a medida defende que é "discriminatória". "O que faz uma turma é a diversidade, em que os bons alunos puxam os maus", argumenta uma docente. A mãe do aluno da Escola José Ruy critica: "Não tarda nada estamos a dividi-los por clube, altura ou peso".

A psicóloga da adolescência Marina Carvalho lembra que "uma das formas de aprendizagem é através de modelos dos grupos de pares, imitando os comportamentos". Assim, perante a possibilidade de ficarem separados os maus alunos não podem aprender com os bons, esclarece.

Outro risco, apontado pelo psicólogo Américo Baptista é , o "abaixamento da auto--estima dos alunos que mais tarde pode levar a criar um culto dos que fazem mais asneiras". "Os jovens beneficiam de um ambiente estimulante e se estão num ambiente pouco diversificado isso pode criar um ciclo vicioso", acrescenta. (notícia DN)

Comentário:

Consideramos totalmente errada a decisão do Conselho Executivo da Azevedo Neves. O Movimento Escola Pública, desde a sua existência, tem-se pronunciado contra turmas de nível, porque elas são estigmatizantes e potenciadoras das desigualdades de partida. O estudo que divulgámos há um ano, publicado no jornal britânico Independent, mostra que, para combater o insucesso escolar, o melhor caminho são as turmas pequenas e heterogéneas. Acrescentamos que são necessários mais professores de apoio, assistentes sociais e psicólogos (quantos estão no desemprego?). São precisos meios humanos, e para isso é preciso vontade política para abrir os cordões à bolsa no que interessa. É sintomática esta citação na notícia: "Não temos horas, nem dinheiro para ter um professor de reforço em todas as turmas".