segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Planos de recuperação: omolete sem ovos


O ministério prepara alterações ao Estatuto do Aluno. Uma das questões mais comentadas pelos profissionais é a dos testes de recuperação, obrigatórios para os alunos que excedam o limite de faltas. Os professores serão obrigados a realizar para cada aluno um teste com as matérias a que faltou. Multiplique-se cada turma por 10 alunos que em média podem incorrer na situação descrita, multiplique-se cada um destes alunos por 13 disciplinas.
Mas se o aluno voltar a faltar a seguir, repetir-se-á a dose.
Os testes seriam teoricamente feitos nas próprias aulas: imagine-se ter de parar as aulas cada vez que há um aluno que excede o limite de faltas…

Mas este é o padrão das pseudo-,medidas de recuperação para travar o insucesso e abandono escolar. A equipa de Maria Lurdes Rodrigues superou-se nesta estratégia burocrática.

Ao mesmo tempo que estes testes extraordinários e sistemáticos vão encalhando contra a realidade, convirá que nos interroguemos sobre o sentido de tudo isto. Porque o governo de Sócrates se especializou, e na educação em particular, na manipulação das aparências. O que se pretende é pura e simplesmente parecer que se está a atacar os graves problemas, com o lançamento constante de normas legais para as escolas, isto é, para cima dos professores.

Tal estratégia visa diminuir a autonomia dos professores. Mais grave do que isso: pretende-se enredá-los sempre mais na teia, paralisando-os através do desperdício de energias e da consequente frustração. Porque ao descarregar sobre eles os graves problemas que estão por detrás de um número impressionante de alunos que faltam sistemática ou frequentemente às aulas, sabendo que eles não podem resolver esses problemas, o governo empurra-os para a impotência.( Neste ponto referimo-nos especialmente aos alunos que faltam por razões alheias a doenças comprovadas, pois neste caso o que é preciso é simplesmente cuidados médicos).

E não vale a pena fazer demagogia ou passar a culpa para os alunos e as suas famílias. A maior parte dos alunos "grandes-faltosos" carece de condições mínimas que geralmente são ignoradas. Há quem falte gravemente à escola porque não tem livros ou material. Ou passe fome. Há quem se sinta completamente desmotivado e arrastado para um beco sem saída. Quem não tem em casa quem saiba ou o possa ajudar. Há quem viva com avós ou outros familiares porque os pais não existem, de facto ou na prática. Há quem, aos 12 e 13 anos, se sinta só e abandonado. Quem sinta na pele o desemprego dos pais. Há quem não tenha papéis de legalização, no caso de filhos de imigrantes. Há quem atravesse crises no fio da navalha na adolescência, num ambiente social degradado.

E qual o papel dos planos de recuperação? Geralmente nenhum. Não passam de papéis e mais papéis. Porque as escolas públicas não têm pessoal com condições para ir saber o que se passa. Técnicos de apoio capazes de agarrar os problemas e trabalhar a sério para encontrar soluções. Práticas agilizadas de promover apoio imediato, a nível de apoio social, psicológico ou de ensino especial.

Ou seja, os nomes dos planos até podem tocar nas feridas do sistema. O problema é que o governo não quer curá-las. Aparentemente dá-lhe mais resultado fazer acreditar que quem está a falhar são os profissionais. O governo aposta no ataque e na pseudo-exigência aos trabalhadores, quando o que falta é a sociedade, e os professores e sindicatos em primeiro lugar, exigirem ao governo (!) meios e recursos humanos em qualidade e quantidade proporcionais à crise gravíssima que afecta perigosamente esses alunos.

Dizer que esses alunos estão a beneficiar com a infração, ou que o ministério os está a premiar, demonstra que não se está a perceber o essencial do que se passa, para além de ser geralmente falso: nunca esses alunos grandes-faltosos por razões não esclarecidas passarão de ano!

Importa por isso exigir meios e apoios imediatos, humanos e sociais, eficazes, para os resgatar do buraco em que estão metidos e que mina toda a sociedade.

Jaime Pinho

Sobre este assunto lê também o post de Helena Dias no blogue “Inverno em Lisboa”.

Lê também a notícia do DN: 16 mil alunos fora da Educação Especial

domingo, 31 de janeiro de 2010

Outra Escola é Possível


Na Biblioteca da Escola Secundária Camões, em Lisboa, teve lugar o II Encontro Nacional do Movimento Escola Pública. Uma tarde de Sábado que decerto não foi perdida por nenhum dos participantes. É que a discussão foi rica, plural e até empolgante.

Numa sala que ameaçou ser demasiado pequena para a meia centena de pessoas que ali se juntaram, não faltou debate. O documento escrito para o Encontro foi um ponto de partida sólido mas aberto para a discussão que se seguiu. Não se tendo arrumado em nenhuma gaveta a espantosa luta dos professores pela dignidade da sua carreira e da escola pública, abriram-se muitas portas para novos combates sobre o modelo de escola que queremos: menos alunos por turma e por professor, a democracia vivida na escola por todos os seus actores, equipas multiprofissionais, alunos e pais a participar, um currículo integrador de saberes e promotor da reflexão crítica e cidadã, uma escola que não desiste de nenhum/a aluno/a.

O Encontro foi também enriquecido pela presença do Ricardo Silva da APEDE, do Ilídio Trindade do MUP, da Carmelinda Pereira da CDEP, do Joaquim Sarmento (do Movimento Escola Moderna), de vários dirigentes do SPGL, do Sérgio e da Ana (da Associação de Estudantes do Camões) e do blogger e activista Francisco Santos que já postou no (Re)Flexões uma análise pertinente.

Mais de metade das pessoas presentes usaram da palavra tornando o debate construtivo e vivo. Falou-se do “Acordo”. E do que é isso do “Eduquês” e da “Autoridade dos Professores”. Dos chumbos, das retenções, e de como é preciso acabar com eles mas garantindo condições de aprendizagem para todos/as. De como a democracia deve ultrapassar qualquer modelo de gestão. De como o governo está mais interessado nas aparências do que na mudança. De como os estudantes devem ter voz activa na escola sem paternalismos. Da igualdade de oportunidades como missão da escola. E de muito mais.

O documento está agora a ser alterado de acordo com várias sugestões e em breve divulgaremos aqui a sua “versão final”. (Entre aspas, claro, porque é uma discussão sempre em aberto).

Deste encontro o Movimento Escola Pública Igualdade e Democracia saiu muito mais forte para enfrentar os novos desafios. Não só nós, mas todos os participantes e, sem falsa modéstia, a própria escola pública. É que os novos desafios vão exigir o empenho de muitos/as e é com isso que contamos.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Cá estamos!






Gente dando tempo seu (sábado à tarde) a debater e construir caminhos para mais acções pela Escola Pública em Portugal, que garante a qualidade do tempo de todos e de todas.
Bela, a sala da antiga biblioteca da Escola Secundária Camões. Larga, a mesa, a permitir a fala aberta entre pares... educadores, estudantes, pais, mães, professores, professoras, activos na Cidade Comum.
Viva a Escola Pública! Viva!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Cá estaremos


II Encontro Nacional do Movimento Escola Pública

30 de Janeiro, 14h30
Biblioteca da Escola Secundária Camões, Lisboa

(Metro Picoas, entrada pela porta principal da escola)

Vê o
documento, aberto a alterações e contributos.

AECS: próxima reunião é segunda-feira

Eis o comunicado que condensa as reivindicações dos professores das AECs e que anuncia a próxima reunião:

Exigimos respeito!

Desde o início que a implementação das AEC's não corresponde a uma resposta de qualidade devido à irresponsabilidade do ME ao lançar medidas sem ter em conta as situações e as condições em que estas decorreriam;

A forma como estas actividades estão organizadas significa muita escolarização, em espaços que por vezes não são os mais adequados;

Desde o início que o ME colocou uma venda nos olhos e teima em não querer ver a situação caótica estabelecida;

A indignação dos profissionais que trabalham nestas actividades é cada vez maior uma vez que não existem regras, nem na contratação do pessoal que assegura estas actividades, na maior parte docentes, nem nos pagamentos, ou na falta deles, nem tão pouco nas condições de trabalho;

Estes docentes e técnicos estão sujeitos ao despotismo e autoritarismo de empresas criadas à pressa para o efeito, sem o mínimo de preparação nem de preocupação com a qualidade da oferta;

Uma responsabilidade primeira que deveria ser a do ME é delegada nas Câmaras Municipais que, por sua vez, delegam em empresas ou associações de pais. De mão em mão é muito pouco o que chega a quem realmente assegura o funcionamento das AEC`s.

Ninguém fiscaliza nem regula este trabalho de grande precariedade, mão-de-obra barata, e coma aqual o ME, sem escrúpulos, apregoa a sua escola a tempo inteiro.

Porque este modleo nãos erve às famílias, não serve ao país, nem serve a quem em primeira mão deveria servir, às crianças;

Exigimos:

- O fim ao recurso aos recibos verdes

- A melhoria das condições de trabalho - materias pedagógicos, espaços adequados.

- O fim dos atrasos nos pagamentos

- A fiscalização das condições de trabalho e salariais por parte das entidades competentes


- A colcoação dos cocentes das AEC?s através de procedimentos concursais.

Ficou agendada a próxima reunião para o dia 1 de Fevereiro, 19h, na sede do SPGL, para organizar a acção reivindicativa face às exigências apresentadas.

Plenário de professores contratados


Infelizmente, realiza-se à mesma hora e no mesmo dia do II Encontro Nacional do MEP. Uma coincidência muito infeliz e que podia ter sido evitada. Fica o alívio de que ninguém fez de propósito.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Venha esse debate!


Num post publicado esta quinta-feira, o Ramiro Marques transpira a sua aversão pela escola que defende "os direitos dos alunos" e "a educação sexual". E reforça a sua visão passadista e conservadora de uma escola assente apenas na "transmissão de conhecimentos". Tudo isto a propósito do documento que vai estar em discussão aberta no II Encontro Nacional do MEP, este Sábado. Como o próprio afirma, trata-se da sua modesta opinião, que acolhemos com atenção. Naturalmente, discordamos. O Ramiro conclui que não podemos contar com ele para uma “escola faz-de-conta”, mas desde já respondemos que ele pode contar connosco para uma escola inclusiva “a sério”. Na verdade, o Ramiro é uma das pessoas que gostaríamos que participasse com os seus pontos de vista num debate a organizar em breve e que vem referido no nosso documento:

A organização de uma Conferência/Fórum sobre o modelo de escola que se pretende para o futuro, colocando vários pontos de vista em confronto, seja das ciências da educação, do mundo sindical, dos movimentos de professores, de outras áreas sociais, ou de “fazedores de opinião” na Internet. Com este debate pretendemos contribuir para clarificar as ambiguidades em torno do termo “Eduquês”, e ainda desmistificar uma certa visão saudosista do ensino como mera transmissão de conhecimentos, à maneira antiga do “mestre-escola”.

Venha então de cá e de lá esse debate, com o Ramiro e muitos/as mais.

Como dar aulas em Inglaterra


Um novo blogue, uma causa que merece apoio:

A todos os interessados que por ai caminham sem saberem nem muito bem porquê nem como, que passaram por uma licenciatura e anseiam por algo mais, sem saberem bem o quê, mas mais, mais do que esta vida que não nos basta e não nos chega, porque quisemos mais e queremos mais para lá dos recibos brancos ou verdes, dos "cole-centeres" (como diria o nosso amigo Mário Zambujal) e dos centros de explicações, onde não somos senão carne para canhão, e tantas vezes nem isso, apenas números para apagar da lista conforme o patrão se vira para a direita ou para a esquerda enquanto a noite dorme, apenas e somente números sem nome ou letras, numerais, algarismos, unidades, dezenas, milhares de desempregados, quarenta mil professores, a todos quantos estejam dispostos a uma partida feita de sete mares, este blogue é para vocês, um instrumento de trabalho que eu quero de igual modo como instrumento de esperançaa, de acesso gratuito assim como gratuita e a promessa de que amanhã não é longe demais, e já aqui e agora, assim queira a tua mão.

http://www.daraulaseminglaterra.blogspot.com/

Modelo de gestão escolar


Com a saída de cena no Ministério da Educação de Maria de Lurdes Rodrigues e seus secretários de estado, as negociações entre sindicatos e a nova ministra, Isabel Alçada, estranhamente estão a branquear o modelo de gestão escolar, quando a figura do Director foi criada à imagem e semelhança da própria ex-ministra, que deixou estes representantes do ministério nas escolas e agrupamentos de mãos atadas, sem verdadeira autonomia no que é essencial para a verdadeira função da escola pública cujas políticas educativas tardam a ser avaliadas no concreto ou seja, para além do aparato dos investimentos, desarticulados de critérios de exigência.

Aos directores foi deixado o papel de submissão às lógicas economicistas dos governantes do poder central e local, e às preocupações estatísticas que predominam no ensino, bem como o de gestores de mão-de-obra precária, em que estão transformados também os jovens profissionais da educação em Portugal.

Esta pode ter sido uma oportunidade perdida para repor a democracia que se está a perder em meio escolar, em que era preciso voltar a dar oportunidade aos vários elementos das comunidades escolares para elegerem o órgão colegial, como os antecessores conselhos executivos, modelo bem mais coerente com a escola pública.

José Lopes (Ovar)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Documento de Apoio ao II encontro do MEP

Aqui poderão encontrar e descarregar o documento em aberto que servirá de ponto de partida para a reflexão que se pretende ter no decorrer do II encontro Nacional do MEP. Dessa discussão sairá o documento final que orientará a actuação do Movimento no próximo ano.

Link para o DOC.

Link para mais informações sobre o encontro

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

AECs: professores prontos para lutar


A reunião para debater as injustiças e os problemas ao nível das Actividades de Enriquecimento Curricular juntou dezenas de professores/as das AEC's, activistas dos Precários Inflexíveis, do Movimento Escola Pública e do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, num debate vivo e construtivo.

Os relatos que se ouviram foram de completo caos e arbitrariedade: numa escola os professores não podem interagir com os pais acerca da evolução dos alunos, numa outra há professores a falsos recibos verdes, há escolas onde a Câmara não paga a tempo e numa outra a empresa não faz contratos ou tem atrasos sistemáticos no pagamento dos salários.

Mas há um fio condutor: o jogo do empurra que começa no Ministério da Educação, passa pelas Autarquias, favorece empresas e afecta os/as professores/as está sempre presente.

Neste plenário foi claro que é ao Governo e ao Ministério da Educação que teremos de exigir responsabilidades para que as AEC's sejam proveitosas para as crianças sem ser às custas de quem dá o seu melhor na sala de aula.

Há fortes perspectivas de realizar uma acção pública para o final do mês de Fevereiro, que dê visibilidade à situação em que se encontram estes mais de 10 mil professores, vergonhosamente tratados pelo governo como profissionais de segunda.

O próximo plenário aberto a todos/as será já na próxima segunda-feira (01/02/10), às 19h, no SPGL (Rua Fialho de Almeida) e irá decidir como nos vamos organizar: estamos todos/as convocados!

Post adaptado dos
precários inflexíveis

domingo, 24 de janeiro de 2010

Movimento Escola Pública quer alargar actuação a temas para além da carreira


Depois de "concentrar esforços" na luta dos professores contra o Estatuto da Carreira Docente nos seus dois primeiros anos de existência, o movimento "Escola Pública" quer alargar os horizontes da sua actuação. E já escolheu uma meta: combater o "excesso" de alunos por turma.

"Ao contrário de outros movimentos, que nasceram mais focados na questão dos direitos dos professores, a nossa missão sempre foi ter uma visão global sobre a escola", explicou ao DN Miguel Reis, presidente desta estrutura e militante do Bloco de Esquerda. "Depois de dois anos em que nos concentrámos nos problemas dos professores, vamos agora propor medidas para tentar tornar a escola melhor".

No próximo sábado, o Escola Pública promove um "encontro nacional", no Liceu Camões, em Lisboa, com nova proposta em cima da mesa: "Vamos defender o lançamento de uma campanha nacional para reduzir o número de alunos por turma. Um objectivo que nos parece essencial para se reduzir o insucesso", explicou Miguel Reis.

O também professor do ensino secundário defende que esta meta - na qual espera envolver também "outros movimentos de professores, aliás convidados para o encontro, e sindicatos" - é decisiva para o sucesso do alargamento da escolaridade obrigatória aos 12 anos.

"Sabemos que a maior parte do insucesso escolar acontece na passagem do 6.º para o 7.º ano e do 9.º para o 10.º ano", lembrou. Para reduzir esse insucesso, é preciso ter turmas mais reduzidas. Sobretudo nesses anos".

As novas metas não impedem, no entanto, que o "Escola Pública" continue a acompanhar as questões relacionadas com os direitos dos docentes. E se Miguel Reis não hesita em classificar o acordo entre Ministério da Educação e sindicatos como "uma derrota do Governo Sócrates, em particular do seu grande objectivo que era reduzir salários", também admite que nem tudo ficou resolvido.

"Em relação à avaliação de desempenho, a solução que se mantêm continua a ter problemas", defendeu. "Vai colocar professores contra professores nas escolas, numa competição pelas notas, ou antes pelas quotas para as melhores notas".

In Diário de Notícias

Nota: A peça é leal ao conteúdo das declarações feitas, cometendo apenas uma imprecisão: o Movimento Escola Pública não tem presidente/a. Por outro lado, sublinhe-se que a decisão final sobre as campanhas que promoveremos será tomada no II Encontro Nacional

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A marca do insucesso permanece


Em cinco décadas, o número de crianças no pré-escolar cresceu 40 vezes, a taxa de escolaridade no ensino secundário escalou de 1,3% para 60% e o acesso das raparigas ao ensino subiu 15%. Este é o retrato do ensino português publicado nos "50 Anos de Estatísticas da Educação", que ontem o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) divulgou. Os dados mostram que o país deu um salto gigante entre 1960 e 2008 mas, para os especialistas, essa evolução significa que Portugal está exactamente no mesmo ponto de partida de há 50 anos. "Fartámos de correr, mas não conseguimos ainda apanhar o pelotão da frente", avisa o sociólogo do Instituto de Ciências Sociais Manuel Villaverde Cabral.
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Professores querem mais tempo para preparar aulas


Cristina é professora há 20 anos e, apesar de ter o horário de 35 horas semanais, diz que todos os dias trabalha mais de oito. Em casa, à tarde, à noite, aos fins-de-semana, sempre numa corrida intensa para preparar aulas, corrigir testes e programar actividades com os alunos. Tem 20 horas de componente lectiva e as restantes de não lectiva. Mas, entre estas, diz, estão muitas tarefas, como por exemplo, o apoio aos alunos, que deveriam ser consideradas horas lectivas.
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Encontramo-nos outra vez


II Encontro Nacional do Movimento Escola Pública

O sucesso não são números.
Cem mil é muita gente.
As turmas também.
O governo fecha os olhos.
Autoridade cheira a mofo.
Falta educação.
Fraca é a literacia.
Os professores dão luta.
Os alunos merecem mais.
Há escola para além do acordo.
O dinheiro não manda nela.
Juntos mostramos como.

O movimento escola pública reúne-se para reflectir sobre tudo aquilo por que luta.

30 de Janeiro, Sábado, 14h30
Biblioteca da Escola Secundária de Camões

(Praça José Fontana, Lisboa, Metro Picoas - Entrada pela porta principal)

Consulta o documento em discussão

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domingo, 17 de janeiro de 2010

Exigimos respeito!


Evitar a institucionalização


O tema abordado na Noticias Magazine n.º 920 sobre a institucionalização de crianças e adolescentes, pode ser incómodo, mas é incisivo, sobretudo pela coragem de afirmar sem hipocrisias, que tem efeitos comprovadamente negativos para os próprios e para a sociedade. Um trabalho, que deixa pistas fundamentais, nomeadamente a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, que o Estado português ratificou, e por isso assumiu responsabilidades, com particular incidência no caso das crianças desprovidas de meio familiar adequado, para que se reduzam os casos de pobreza, orfandade, abandono, maus-tratos e violência doméstica. Mas o que vivemos cada vez mais em meio escolar, é o fácil e frio recurso à institucionalização.

Sem que os vários órgãos de gestão dos agrupamentos de escolas ou mesmo as associações de pais manifestem grande interesse em conhecer o destino dado às muitas crianças e adolescentes que em cada ano lectivo vão sendo institucionalizadas, como solução prática, tanto para os factores sociais das famílias desistruturadas e muitas vezes para a falta de resposta adequada de meios técnicos e profissionais, que não são disponibilizados nas escolas pelo Ministério da Educação. Quantos rostos, quantos nomes de alunos se apagam na indiferença e no esquecimento imposto pelos silêncios que normalmente imperam nestes processos.

Prevenir as situações de institucionalização, fomentando alternativas, tal como nos é sugerido no texto “Evitar a institucionalização” é um arrojado desafio, mas valia a pena debater na sociedade e nas escolas, para que houvesse mais sensibilidade na aposta do caminho que encare tais processos, cm último recurso e de duração temporária. Desta forma as comunidades escolares não cortavam laços com estas crianças e adolescentes, porque independentemente de na generalidade dos casos, serem desprovidos de meio familiar, como também é dito “não merecem menos do que quaisquer outras crianças”.

José Lopes (Ovar)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Acordar depois do “Acordo”


O “acordo” assinado entre o Ministério da Educação e os sindicatos traduz uma derrota inequívoca das políticas de Sócrates. Só que o maior erro dos professores seria encará-lo como uma anestesia, inibindo a continuação de uma luta que tem mostrado valer a pena.

Na era da prioridade ao défice e às políticas de austeridade – designações pomposas que o neoliberalismo descobriu para disfarçar os cortes sociais e o desinvestimento nos serviços públicos – poucos apostariam que o governo fosse ceder no osso das suas políticas. Mas foi a isso que foi obrigado por uma força imensa que inundou de revolta as avenidas de Lisboa e de todo o país. Se dúvidas persistem do tamanho da derrota deste governo, o insuspeito Vital Moreira já se encarregou de as desfazer.

Em 2007, Maria de Lurdes Rodrigues foi a cara de um novo Estatuto da Carreira Docente que impedia dois terços dos professores de atingirem o topo da carreira. O Ministério das Finanças assim o impôs. Era preciso poupar, diz a cartilha. Curiosamente, esta divisão da carreira entre professores e professores titulares levou “apenas” 25 mil docentes à rua, um número muito expressivo mas bem longe do que se veio a registar depois.

Contudo, foi a insensatez do modelo de avaliação, ancorado na competição entre professores, que fez transbordar o copo. As gigantescas manifestações que se seguiram começaram por ser apenas um grito contra a burocracia. Só muito depois ganharam ambição e acertaram no osso: era preciso terminar com a divisão arbitrária da carreira em duas categorias.

A diferença entre o “memorando de entendimento” – de má memória para a maioria dos professores - e este “acordo” é que, no primeiro caso, o governo recuou apenas no acessório. Aliás, todos os famosos “simplex” que se seguiram foram areia para os olhos para esconder aquilo que Sócrates queria deixar intacto: “pronto, pronto, tomem lá uma avaliação da treta, desde que se mantenham as quotas e não tenhamos que mexer na divisão da carreira”. Ou, mais precisamente: “sejam bons ou maus professores à vontade, mas não nos abram o cofre”. Porque, desenganem-se os mais ingénuos, para o governo o problema nunca foi se os professores eram bem ou mal avaliados nem se os alunos aprendiam bem ou mal.

Desta vez, a história é diferente: o fim da maioria absoluta obrigou Sócrates a abrir o cofre, algo que só está habituado a fazer quando os pedintes são banqueiros. Agora, todos os professores voltam a poder chegar ao topo da carreira, mesmo que em condições bem piores (34 a 40 anos de serviço) do que aquelas que vigoravam antes de 2007 (27 anos de serviço).

É também verdade que não há outro sector da função pública que tenha conseguido manter este direito. Isso não significa que os professores não tenham razão, mas tão só que eles foram até agora os únicos capazes de uma resistência tão imponente contra o neoliberalismo e os seus precipitados dogmas.

Aguardará o governo oportunidade melhor para voltar à carga com a austeridade. Infelizmente, os professores contratados ou a recibo verde – muitos deles há vários anos fora da carreira mas necessários às escolas – continuam a ser o alvo preferido e silencioso. Se Sócrates não pode poupar tanto quanto desejava com os professores de carreira, resta-lhe continuar a adiar a entrada dos precários, os mais desprotegidos tanto pela tutela como pelos sindicatos.

Sublinhe-se no entanto que, se este “acordo” vale pela derrota do governo e pela vitória dos professores, está ainda muito longe de garantir uma escola pública melhor. O modelo de avaliação docente, para lá de estar sujeito à arbitrariedade das quotas nas notas mais elevadas, promove a cunha e a competição. Mais ainda, com ciclos avaliativos de dois anos, arrisca-se a fazer das escolas centros de avaliação de professores – todos se vigiam com aulas assistidas – em vez de espaços centrados nos alunos. Já para não falar no autocrático modelo de gestão, que quer fazer do director o capataz governamental em cada esquina.

O “acordo” traduz uma vitória dos professores, mas não não é um compromisso que proíbe ou inibe a continuação deste combate. Porque se a contrapartida deste “acordo” é o baixar de armas, ele vai valer muito pouco no futuro. Ao contrário do que as palavras de Mário Nogueira parecem sugerir, os professores não devem lavar as mãos da responsabilidade das próximas lutas, entregando-as aos partidos ou diluindo-as na função pública em geral. Isto aplica-se tanto aos aspectos negativos do "acordo" como às matérias sobre as quais o "acordo" não versa.

É preciso pois acordar do sono induzido pelo "acordo", e, naturalmente do cansaço de um combate que já tem mostrado que vale a pena. É preciso acordar, não apenas pela valorização da carreira docente, mas cada vez mais para lutar por uma escola diferente: uma escola que não desiste de nenhum aluno e com recursos para garantir um sucesso escolar real – e não estatístico – para todos. Essa nova escola implica grandes mudanças e, inevitavelmente, não se faz sem ir ao cofre outra vez, custe o que custar.

Miguel Reis, professor da Escola Secundária Alfredo dos Reis Silveira (Seixal)