sexta-feira, 21 de março de 2008

Cegos, surdos e mudos

“Não me façam perguntas sobre avaliação que não lhe vou responder...”, “Não lhe vou responder aquilo que quer ouvir...” Foi assim, a ministra na interpelação parlamentar desta semana!
A sua passagem pela Assembleia da República, a forma insolente como recusou responder aos deputados e aos jornalistas revela um absoluto desprezo pelo confronto e pelo debate democrático. A dita poderia rebater, poderia emprestar às suas respostas o acinte ou a agressividade que entendesse, mas não, foi a ostensiva recusa a responder fosse o que fosse.
Admiração? Apesar de tudo alguma, ainda que a forma prepotente e miserável como continua a querer ignorar a vontade dos professores, expressa na marcha da indignação, nos cem mil professores na rua viesse dando nota grave desse tom.
O Governo veio com o papo cheio de bazófia moralista, dizer que não governa em função da “rua”, já estávamos fartos de ouvir. Mas, pelos vistos, governa sozinho, num total desdém pelo Parlamento, pelas oposições e por sectores expressivos do próprio partido que o sustenta, numa pulsão autista encharcada de tiques nada democráticos.
Isolados e acossados, ministra e os seus acólitos continuam afundando-se num pântano de irresponsabilidade e de insensibilidade social.
Com as pontes de diálogo cortadas com os professores, numa turbulência dentro do próprio partido que a suporta, o apoio obstinado e desvairado de Sócrates de pouco servirá para alterar a indignação, o inconformismo e a revolta que grassa entre os professores.
Na rua, evidentemente, teremos de continuar a insistir para suspender o processo de avaliação. Como nas escolas! Vamos parar o processo de avaliação! Sem medos. Com inteligência e com audácia. Está ao nosso alcance.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Provar por a; b; c; será bastante para quem o for

Imagem in http://members.aol.com/PoeSpecs/ftblack.jpg



O seu PCE é mais papista que o Papa? Anda a dar ordens que violam a legalidade? Assine e entregue este requerimento!
Que fique claro: a maioria dos PCEs (Presidentes dos Conselhos Executivos) não é mais papista que o Papa. Muitos estão ao lado dos professores e não se esqueceram ainda de quem os elegeu.
A maioria é cumpridora da lei, é tolerante e solidária com os professores. Há outros, porém, que andam a mostrar trabalho à tutela, na ânsia de evidenciarem o seu desejo de virem a ocupar o lugar de director. Há alguns, poucos ainda, que andam a intimidar os professores, que impõem a lei do silêncio e dão ordens que violam a legalidade. Se o seu PCE é dessa espécie, pegue nesta minuta, preencha-a, assine-a e entregue-a na secretaria da sua escola. Não se deixe intimidar.


Exmo/a. Sr/a. Presidente do Conselho Executivo da Escola 2,3,S Agrupamento de Escolas de



Pedido de confirmação ou de transmissão por escrito de ordem recebida oralmente

NOME , residente em/na , com o telefone nº , Bilhete de Identidade nº. , Contribuinte e com a categoria profissional de....., do Grupo de ....... / Ensino ....
a exercer funções docentes nesta Escola, informada/o oralmente do teor das seguintes ordens de serviço, da autoria do deste Agrupamento/Escola, de acordo com as quais a/o docente deve:
a) ;
b) ;
c)
…vem nos termos do nº 2 do artigo 10º do Decreto-Lei nº 24/84, de 16 de Janeiro, declarar, para os devidos e legais efeitos, que considera que as ordens supra descritas, podem não estar de acordo com a legislação em vigor.Mais requer a Vª Ex.ª, tendo em atenção o disposto no Estatuto Disciplinar (artigo 10º), se digne a emiti-la por escrito. Espera deferimento
LOCAL E DATA
Assinatura legível

Post raptado e adaptado do ProfAvaliação, 19.03.2008
A Imagem não é da mesma fonte.

Note-se que o pedido de ordem por escrito não permite, por si só, a recusa ao cumprimento da ordem, segundo os códigos adequados.
Entretanto, todos os alunos envelheceram mais um dia. Todos os outros também, qualquer que seja o seu lugar nas hierarquias. Aprenderemos, assim, alguma coisa. Basta-vos?
Maria José Vitorino

Vivam os sotaques da Línga Portuguesa. CONSTRANGIMENTOS???




Esta e mais imagens em

Regional 2008-03-18 16:52
O Sindicato dos Professores da Região Açores (SPRA)anunciou que uma recente reunião com o GovernoRegional permitiu dar "passos importantes" nas alterações ao Estatuto da Carreira Docente, como a justificação das faltas por doença.
Em conferência de imprensa, o presidente da estrutura sindical adiantou que, após um encontro na sexta-feira para entrega de um abaixo-assinado subscrito por três mil docentes, o secretário regional da Educação e Ciência assumiu "alguns compromissos" que permitem"ultrapassar" no arquipélago "constrangimentos que existem a nível nacional".
Armando Dutra destacou o caso da justificação das faltas, que passam a poder ser comprovadas por médicos dos sectores público ou privado da respectiva ilha, não interferindo na avaliação dos docentes. "Nenhum docente em situação de maternidade ou paternidade pode ficar prejudicado na sua avaliação econsequente progressão na carreira, mesmo que não cumpra 90 dias de aulas, requerendo apenas à direcção regional da Educação o suprimento da avaliação respeitante a esse tempo, que será equiparado a Bom", explicou o presidente do sindicato.
Armando Dutra disse ter sido também assumido o compromisso de não haver prova de ingresso na regiãoaté Janeiro de 2009 e que a sua eventual aplicaçãoterá de passar pela alteração do quadro legal em vigor. "Além disso, a avaliação experimental será um acto voluntário de cada docente, que não pode ser coagido a fazê-la por qualquer meio e, muito menos, ficarsujeito a penalização resultante de um eventual acto de recusa", acrescentou.
No encontro da passada sexta-feira com a tutela ficou ainda acordado que os docentes contratados, tal como os do quadro, não serão sujeitos a qualquer avaliação no ano lectivo 2007/2008, por não estar previsto no Estatuto da Carreira Docente da região.
Apesar de sublinhar que estes compromissos vão "ao encontro das reivindicações dos docentes", o dirigente sindical considerou que existem pontos importantes que"ainda não ficaram assentes". É o caso, segundo Armando Dutra, da penalização dotrabalhador-estudante, da avaliação anual na região, de alguns aspectos da grelha da avaliação e da sobrecarga no horário de trabalho dos professores.
"Já vamos conseguindo várias alterações aoEstatuto, para que se vá criando um clima favorável,mas não são suficientes", afirmou o presidente do sindicato, que realizará plenários em São Miguel e Terceira no início de Maio, para os quais serão convidados representantes dos partidos políticos para uma "reflexão conjunta" sobre o sector.

Fonte indicada: Lusa / AO online
Informação difundida na Lista Escola Pública <escola-publica@googlegroups.com> (18.03.2008), a quem agradecemos

Saber+? No youtube http://www.youtube.com/watch?v=dAVcaAtBi6s&eurl=http://www.spra.pt/

quarta-feira, 19 de março de 2008

As aulas de substituição davam uma grande discussão...


Um professor da Amadora escreveu uma extensa carta à Ministra da Educação que vale a pena ser lida na íntegra (Movimento Professores Revoltados). Discordo em alguns pontos. Simpatizo com outros, como este:

“Quero referir-me agora a uma das principais bandeiras da política do seu ministério – as aulas de substituição. Para o poderem ser, teria sido necessário proceder a uma avaliação séria do seu processo de implementação, o que me parece ainda não ter acontecido. Não sei se sabe mas, em muitas escolas, estas não existem para todas as situações de ausência de professores, por indisponibilidade de recursos humanos; numa parte considerável das mesmas não são trabalhadas questões da disciplina, apesar de obrigarem ao averbamento de faltas aos alunos na disciplina que têm em horário; para além de que uma parte considerável dos problemas de indisciplina que acontecem nas escolas, ocorrerem em aulas de substituição. Sr.ª Ministra, quando era aluno adorava ter “furos”, serviam para brincar, conviver e descontrair. Tive muitos, outros fi-los eu, e não fui, por isso, pior aluno, nem sinto que tenha tido maus professores, uma má escola e uma educação deficiente, antes pelo contrário. Quanto ao contributo das aulas de substituição para o sucesso escolar dos alunos, não existem, ainda, dados sólidos que o comprovem. Penso mesmo não existir uma correlação directa entre uma coisa e outra, porque em muitas delas não se exploram conteúdos programáticos, sendo apenas “entretidos” os alunos. Nesta perspectiva, é muito mais válido o processo de trocas entre professores para diminuir o absentismo docente e promover a aprendizagem.”

Pois é! A escola não são apenas aulas. A escola também deve ser o prazer do imprevisível. A democracia também se aprende no recreio, e às vezes há recreio a menos...

Miguel Reis

E esta avaliação...Para quê?

Sou Professor há 20 anos, com 100% de assiduidade, Licenciado em Filosofia, Mestrado em Ciências da Educação, área de Formação de Professores, com 10 anos a trabalhar em Formação Inicial (Orientação de Estágios com a Universidade Católica e com a Faculdade de Letras) e na Formação Contínua de Professores, investigador da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, com Artigos publicados e com participação em projectos internacionais (U.E.).
Como não participei em Órgãos de Gestão não tive acesso à Carreira de Titular (ainda bem). Mas ainda mal, porque agora vou ser avaliado por um colega com menos habilitações que eu, com qualificações reconhecidas, mas da área científica de História, ou seja, sem conhecimentos da Didáctica de Filosofia e de Psicologia e sem experiência de avaliação, porque nunca supervisionou professores na sua prática lectiva.

Na minha escola há um caso mais gritante: uma colega especialista em Avaliação (Mestrado em Ciências da Educação), Orientadora de Estágios e que vai ser avaliada por pessoas como menos habilitações e que desconhecem o processo de avaliação de professores.

Só uma pergunta: como vai ser a minha avaliação?
Outra pergunta: se esta Avaliação pretende o apurar o mérito dos Professores, como pode começar, logo no início do processo, por penalizar alguns “méritos”, a saber, aqueles que dizem respeito à qualificação académica e profissional?

Resta-me ter fé e esperar o melhor!

Testemunho de um professor, colocado como comentário a um dos nossos posts por
estórias de alhos vedros

Foto de Joaquim Farias em
Ferrao.org

Não querem ver, não querem ouvir, não respondem!


Foi assim o comportamento da Ministra da Educação ontem na Assembleia da República.

Um modelo de avaliação imprestável

Pertinente intervenção de Ana Drago, deputada do BE, confrontando directamente a Ministra da Educação no parlamento, durante uma interpelação parlamentar pedida pelo PCP. A Ministra não respondeu a quase nenhuma pergunta, viesse de que bancada viesse. Entrámos na política do autismo.



Os professores têm razão

Os professores não receiam ser avaliados. A avaliação é necessária, e sempre fomos avaliados, implícitamente pelos nossos alunos, e explícitamente pelos nossos pares para progredir na carreira. Portanto a novidade não é a avaliação mas sim como vamos ser avaliados, e este modelo turvo de avaliação, Senhora Ministra, não o esclarece.
Na reportagem da Maria Filomena Mónica, publicada na revista Sábado sobre a manifestação de professores do dia 8 de Março, a socióloga ao abordar o que considera o "pomo central da discórdia", a avaliação dos professores, afirma que "a competência pedagógica é uma qualidade que nenhuma grelha pode captar. Basta ler a peça The History Boys, do premiado Alan Bennet, para se ver o quão arbitrária é a avaliação dos professores. A agravar o problema, o organigrama proposto pelo Ministrério da Educação inspirado nos disparates que Valter Lemos apresentou no seu livros Critérios de Sucesso, é uma aberração(...). A 8 de Março de 2008, 100 mil docentes (dois em cada três) saíram de casa para declarar que não reconhecem à Ministra da Educação legitimidade para os julgar. Para mal dos nossos pecados têm razão"

Beatriz Dias

Fonte:
Revista Sábado, Nº 202, 13 a 18 de Março 2008

terça-feira, 18 de março de 2008

Excelente síntese da política deste ministério

Primeiro em imagens...

Cartoon de Said, publicado por ProfAvaliação


E agora em palavras...


“Desde a primeira hora que pressenti que as "reformas" deste governo relativamente aos professores tinham um duplo propósito interligado: controlar os professores e estrangular a progressão na carreira. Economicismo e controleirismo. O controlo foi e está a ser feito lançando medidas variadas de divisão dos professores: titulares; conteúdo funcional distinto; salários diferentes; etc. Isso era um objectivo instrumental pois permitia o economicismo mas tem também um fim em si: fazer dos professores indivíduos isolados, hierarquizados, fáceis de manipular. O economicismo sendo um objectivo em si, comporta também elementos instrumentais: pagando pouco a muitos e muito a poucos divide os profissionais de uma profissão que ao contrário de outras tem uma essência eminentemente horizontal nos níveis de ensino em que estamos a tratar.

A questão da "nova" gestão está evidentemente ligada a tudo o referido anteriormente: um chefe todo poderoso na escola, dependene dos caciques locais e do ME. Nos últimos dias, depois de semanas e semanas de trapalhadas, o governo acena aos professores com flexibilizações, autonomias à força, chantagens, bombons de créditos horários e de remunerações acrescidas para alguns.

Na minha escola, há indícios, eu direi há sintomas claros de que a democracia que existia e que nem sempre era aproveitada está a morrer.

Estes socialistas no governo são uma fraude. E proliferam pela babugem do que há de pior nos seres humanos e nos professores, como não podia deixar de ser: sede de pequenos poderes e de pequenas vinganças sem limitação; incapacidade de construir colectivamente as acções educativas; incompetências que não querem ser questionadas."

Professora que não identifico porque os pequenos ditadores andam de olho nela.
Por Ramiro Marques

segunda-feira, 17 de março de 2008

Vamos preencher agenda!

Ninguém tem dúvidas que o governo aposta muito nestas férias da páscoa. Para que a contestação acalme, para que a força se dissipe. Querem um regresso normalizado às escolas, no final de Março. E, efectivamente, olhando para o calendário das iniciativas de protesto, elas só têm verdadeira expressão a partir do dia 14 de Abril. Nós achamos que é muito tarde. Não podemos esperar tanto, sob pena de sermos cada vez menos os que sobram com forças para defender a escola pública.

Por isso o Movimento Escola Pública lança um desafio. Apelamos a todos os professores que, com criatividade e imaginação, inventem diversas formas de luta, simbólicas ou mais ambiciosas. Para já, lançamos aqui duas convocatórias, abertas a toda a população, e nas quais nos vamos empenhar a fundo:

- a dinamização de uma vigília/manifestação pela Escola Pública com concentração no Largo Camões, em Lisboa, no dia 4 de Abril, Sexta-feira, às 21h.
- a organização de uma assembleia pela Escola Pública em Setúbal, na primeira semana de aulas, aberta a todos os professores e cidadãos. Data concreta a confirmar ainda antes da Páscoa.

- o apelo a todos os membros do movimento escola pública (que estendemos a todos os professores) para que façam todo o possível para parar o processo de avaliação nas suas escolas, com propostas de tomadas de posição nesse sentido nos órgãos competentes, sem medos.

Antes do final das férias divulgaremos aqui outras acções em preparação noutras localidades do país e ajudaremos na divulgação de outras iniciativas que nos façam chegar.

Resta-nos sublinhar que queremos abrir estas iniciativas a toda a população.
Convidamos todas as pessoas interessadas em defender uma escola inclusiva, democrática e participada. Esta luta não é só dos professores mas sim de toda a sociedade.

Exigimos a suspensão da avaliação que enche as escolas de burocracia, a revogação do diploma de gestão que impõe um director à força, queremos uma carreira única de professor, o fim da prova de ingresso e a avaliação das instituições que formam professores, mas também turmas mais pequenas, equipas multidisciplinares para combater o insucesso escolar, o alargamento dos apoios ao nível do ensino especial, e políticas educativas capazes de responder ao desafio da diversidade cultural cada vez mais presente na escola

Isto é um assalto!

Enquanto as novas ondas de solidariedade se formam, importa não perder de vista a batalha que se aproxima: Exigimos a suspensão de todo o processo de avaliação. A nossa derrota seria do país inteiro.

Aparentemente indiferentes à manifestação de 8 de Março, o governo e o ministério da educação fazem ouvidos de mercador.

A sua aposta em manipular a opinião pública para nos paralisar, em liquidar-nos enquanto classe que preza o brio profissional, encontrou pela frente uma resposta categórica.

Ao pretenderem rebaixar os nossos salários em cerca de um terço, com a criação de uma subcategoria a que chamam não-titulares, revelaram que afinal o discurso do mérito e da necessidade de premiar os melhores não passava de um engodo para proceder a este autêntico assalto ao nosso bolso, criando impedimentos e quotas para que a grande maioria fique com um tecto salarial de uns 1.200 euros de salário líquido para uma carreira de 40 anos de trabalho.

Sabemos do mundo que nos rodeia. Os preços a aumentar, o estado social a ser demantelado, a insegurança social a contaminar o tecido social. Vemos passarem por nós milhares de jovens que cumprem o que lhes é exigido, chegam às universidades. E o que têm à sua espera? Desemprego, sucessivos estágios não-remunerados, 2,5 euros à hora nos call centers, salários de 400 e 500 euros por mês. Precariedade. Exploração violenta.

Por isso compreendemos que querem nivelar-nos por baixo, porque estão determinados em destruir a escola pública. Por este andar, a escola pública seria um depósito dos filhos e filhas dos mais carenciados, de quem não pode fugir para as privadas. A nossa profissão seria desprezada, o nosso saber considerado uma perda de tempo, a cultura geral, científica-técnica-artística-humanista, redundante. Seríamos uma mescla de técnicos de assistência social, guardas das novas gerações de excluídos, bombeiros para fogos de conflitos, mal-estar e revoltas em que a escola guetizada se transformaria. Uma classe desvalorizada numa escola para pobres.

Jaime Pinho, professor

A luta pela Escola Pública é mais ampla do que alguns querem fazer crer....




Obrigado André Agualva!

domingo, 16 de março de 2008

Esta avaliação é quase policial

Ana Benavente, ex-secretária de estado da educação do governo de António Guterres, que defendeu em Fevereiro passado a demissão da ministra da educação, dá uma entrevista ao “Semanário Económico” de 14 de Março, onde comenta o confronto entre os professore e o governo.

Apresentamos aqui o essencial das suas respostas.

Gota de água:
“A avaliação foi a gota de água que levou os professores a dizer que não podiam continuar com esta política”.

Batata quente:
“Com a anunciada flexibilidade da avaliação o ministério passou a batata quente para as escolas de modo a que elas se organizem para cumprir as ordens da 5 de Outubro”.

A força do poder:
“Deve haver uma avaliação integrada na escola. Há uma avaliação agora nas escolas, que pode ter falhas, mas que não é uma avaliação quantitativa, quase policial, como a que está prevista neste diploma. Se esta avaliação vingar, vingará pela força do poder, não da razão. Nesse sentido não vai ser um episódio feliz na vida das nossas escolas, que já estão cansadas de medidas que não têm continuidade”.

Repartição da 5 de Outubro:
“O ministério ainda não definiu a escola que quer. Se é uma escola-repartição da 5 de Outubro, em que tudo é definido centralmente, ou uma escola em que se avança para a autonomia. E o que entende o ministério por autonomia? Estas medidas não fazem sentido senão numa leitura que vê a escola cada vez mais burocratizada e os professores com reuniões sem fim a tentarem decifrar o que vem do ministério da educação. Uma discussão sobre a escola actual é essencial. Primeiro devemos decidir o que queremos fazer e depois seguir os objectivos”.

A não perder também a extensa entrevista de Mário Nogueira ao Correio da Manhã. Permite perceber muitos argumentos que os holofotes às vezes ofuscam.

sábado, 15 de março de 2008

A curva do túnel


No início havia uma luz ao fundo do túnel. Mas afinal o túnel parece ter uma curva que nunca mais acaba. O Ministério da Educação recua muito pouco, sem dizer que recua.

Sobre a gestão das escolas e a imposição do director, sobre o Estatuto da Carreira Docente, sobre as condições de trabalho de todos os professores nas escolas, sobre condições materiais e humanas para todos os alunos nas escolas, o Ministério não fala. Tudo isso é para ficar na mesma.
Sobre o modelo de avaliação, ele é inquestionável, defendem. Não há abébias para fazer experiências, repetem. Então onde está o recuo?

Apenas na rapidez com que o ministério quer aplicar este modelo de avaliação. Mas muito poucos acreditavam que a maioria dos professores pudesse ter concluída a sua avaliação já este ano lectivo. O Ministério apenas admitiu o óbvio.

Só que obriga 7 mil professores a serem avaliados à pressão, entre os quais estão os mais precários. Pior do que isso: quer dividir para reinar, permitindo às escolas “flexibilidade” na aplicação do modelo de avaliação. Significa que os Conselhos executivos mais papistas que o papa vão levar a coisa à risca, vão religiosamente aplicar o modelo do ministério. E quem se pode lixar são os professores contratados dessas escolas.

Tudo isto só serve para uma coisa: a ministra vai dizer que o período experimental de que falava Vitorino é o que se vai fazer já neste ano lectivo com sete mil cobaias. E vai acrescentar que correu tudo muito bem e que para o ano melhor correrá com os restantes 140 mil docentes.

Banha da cobra. O governo pretende abafar as milhares de vozes que protestaram nas ruas de Lisboa com um “vá...vocês vão ver que a avaliação não é um bicho de sete cabeças, sejam bem comportados e não queiram privilégios que mais nenhum funcionário tem”. E não se sente sequer obrigado a discutir políticas para a promoção da escola pública. E não se sente sequer obrigado a rever o militarismo das suas medidas, a burocracia com que inunda as escolas, ou o conformismo perante as turmas grandes, a falta de professores, a ausência de equipas multidisciplinares.

Há esperteza no Ministério. Mas há também força do lado dos professores. É preciso que ela se veja outra vez. De férias ou em reuniões de avaliações de alunos, os professores têm esta luta nas suas mãos. A ver vamos se rebentamos com o túnel para ver a luz do dia.

sexta-feira, 14 de março de 2008

E a Esperança? Continua?

“Dois vice-presidentes do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas Correia Mateus, em Leiria, demitiram-se quinta-feira depois da polémica relativa a uma grelha de avaliação de docentes, disse hoje fonte escolar”

Recordamos que a dita ficha de avaliação penalizava os docentes que "verbalizassem a sua insatisfação sobre o sistema educativo provocando instabilidade nos seus pares".

“Dos quatro elementos do Conselho Executivo, apenas a presidente, Esperança Barcelos, permanece em funções, uma situação que deverá ficar resolvida durante a próxima semana, com a nomeação de uma comissão provisória.”

E será que a dona Esperança fica na dita comissão provisória? Estará a preparar caminho para, como já afirmou, ser a primeira “super-directora” ao abrigo do novo modelo de gestão? Esperemos que não senhora Esperança!

Sem Medos!

Pequenos ditadores (por Ramiro Marques)

Há medo em algumas escolas. Há intimidação. Recebo e-mails todos os dias a testemunharem o ambiente de perseguição. Há conselhos executivos, presidentes de conselhos pedagógicos e coordenadoers de departamento (ainda que em escasso número) que copiam os tiques autoritários dos chefes. Colaboram activimente na política de silenciamento dos colegas mais incómodos, ameaçando-os com processos disciplinares caso haja divulgação pública do que se passa nas reuniões. Já recebi e-mails de professores, em pânico, a pedirem para eu retirar os seus depoimentos do blog. E eu retirei. É conveniente, por isso, que digam sempre se os depoimentos são para publicar ou para não publicar. Digam sempre, por favor, se posso identificar o autor e a escola ou se devo guardar o anonimato do autor.

Convém lembrar que, com excepção de questões relativas à avaliação dos alunos e procedimentos disciplinares sobre professores ou alunos, não existem segredos nas escolas. Não há dever de reserva sobre actas dos conselhos pedagógicos onde se discutam e tomem deliberações sobre questões de política educativa ou de aplicação de medidas de política educativa. Aliás, essas actas deviam ser todas publicadas nos websites das escolas. Num regime democrático, exige-se transparência e divulgação pública das tomadas de posição dos órgãos dos organismos públicos. É preciso ser firme e não ceder à intimidação exercida pelos pequenos ditadores.

A luta pela liberdade de expressão nas escolas, pela defesa da transparência e da divulgação pública dos actos é um combate interminável. Mais do que impor um processo de avaliação de desempenho que visa, fundamentalmente, avaliar 140000 professores a custo zero e que procura impedir que dois terços dos professores atinjam o topo da carreira, esta política repressiva pretende, sobretudo, acabar com a liberdade pedagógica e a liberdade de expressão nas escolas. Os pequenos ditadores que vegetam por aqui e por ali são os paus mandados dessa intenção.

Retirado de profavaliação e de RamiroMarques

Um olhar atento...

«Um sector gritante de extracção de mais valias de biopoder é o da Educação. Pela natureza do trabalho do professor (material e imaterial), é sempre possível fazer crer em que "modernizar" é igual a "gerir bem" igual a "ensinar bem". O que permite retirar o máximo da "modernização" em mais valias materiais e imateriais.

Por exemplo, a avaliação dos professores deve ser feita, mas os parâmetros impossíveis impostos pelo ministério, as aberrações nas exigências da assiduidade dos docentes, a quase impossibilidade de obter a nota máxima, as dificuldades extremas em subir na carreira, os estatuto dos avaliadores incompetentes na matéria avaliada, etc. - estão a empurrar os professores para o abandono da profissão e para a reforma antecipada.

A Educação sofre um massacre que provoca a fuga dos professores: não é isto um dos objectivos da "contenção", a redução do número dos docentes e dos custos da educação? A racionalidade necessária da avaliação esconde a outra racionalidade imposta pelo défice.

Nisto tudo, uma questão me intriga: porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?»

José Gil

Dizem que é uma espécie de Ministério da Educação…

100 mil na rua, mas para a ministra isso não é relevante.
Tem sido esta a postura do governo e deste ministério da “educação” desde que assumiu a pasta com o mesmo nome.

Num total desrespeito pela classe que está nas escolas – uns mais novos e ainda com um grande caminho a fazer, outros com muitos anos de carreira e já próximos da aposentação – a ministra da educação e os seus secretários de estado cortam a direito, lançando catadupas de diplomas, despachos, normativos sobre os/as professores/as, em que o traço comum é o derrubar o que está feito, o que vem de trás, como se tudo o que se fez não fosse nada ou pior, fosse para deitar borda fora, porque não presta. A revolta generalizada cresceu e os professores não se deixaram intimidar com as visitas da PSP às escolas para saber quantos iam à manif. Foram 100 mil, isto é, cerca de 70% da classe docente!^

Daí que fosse tão bem dado o nome à mobilização do professorado nacional: Marcha da Indignação. Uma indignação que se mostrou naquele sábado em Lisboa, com a marca da diversidade, da unidade, da imaginação, da criatividade e da determinação em não baixar os braços.

Silenciosa e sozinha na Curia, a ministra ficou indiferente. Como só pode ficar indiferente quem perdeu o sentido da realidade; quem, governando fortalecido com uma maioria absoluta, perdeu o sentido da democracia e do diálogo; quem não estando nas escolas, desconhece o profundo mal-estar de quem aí trabalha. Uma ministra que está cada vez mais identificada com Sócrates, aquele que todos os dias aparece, sozinho, num palanque, falando dum mundo virtual. Para quem tanto fala dum governo com sensibilidade social, estamos conversados!

Neste jogo de forças que tem oposto o governo/ministério e o professorado algumas figuras têm vindo a terreiro. Umas pelas piores razões – o ministro Augusto Santos Silva, Albino Almeida da CONFAP desejoso de prestar vassalagem a quem lhe financia os seus interesses (150 mil euros ano!); Emídio Rangel para quem os professores manifestantes não passam de pseudo-professores, hooligans, comunistas, gente que trabalha pouco e ensina menos… Do outro lado, gente de todos os partidos, sem partido, membros do PS, Ana Benavente, o cardeal patriarca de Lisboa para quem “os professores e educadores deste país são um grupo decisivo para o futuro do país, por ventura mais decisivo que os políticos, que os técnicos e os financeiros”.

Estamos no pós-Marcha da Indignação com outra força, outra alegria que descobrimos, alguns pela primeira vez. Andamos de luto nas escolas, mas falamos alto do que nos vai na alma, já sem medo, porque descobrimos que afinal somos muitos que não toleramos esta avaliação persecutória e esquizofrénica; que sabemos que temos de ganhar novos aliados – os pais e encarregados de educação, os alunos – todos os que estão preocupados com o futuro do ensino público deste país, em risco com este tsunami legislativo que tudo arrasa.

Percebendo que perdeu o pé, o ministério desdobra-se em declarações contraditórias, tentando adocicar uma política que deseja minar os fundamentos da escola pública. Mas os professores descobriram que conseguem estar unidos no essencial e que são uma força poderosa, alicerce e fundamento da Escola Pública, um dos esteios da democracia. No passado dia 8 de Março, na rua, 100 mil professores e professoras fizeram a mais inequívoca moção de censura a esta política educativa.

Março 2008
Almerinda Bento (publicado no Comércio do Seixal)